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quarta-feira, 9 de junho de 2010

DESCONTANDO O CHEQUE

foto e texto: walter rodrigues


Álvares desce do ônibus afetado por uma ressaca colossal. Avenida Presidente Vargas, Belém do Pará. Os dias de fevereiro na cidade seguem nublados e chuvosos. Ele caminha vencendo os panfleteiros e vendedores ambulantes tão caros naquele logradouro. Na mente as coisas circulam vagarosamente, ele apenas segue com passos lentos no rumo do Banco da Amazônia.
Duzentos e setenta reais e quarenta centavos para serem descontados de um cheque assinado por seu mais ex-recente patrão. Novamente desempregado e desiludido, Álvares Rocha sente que as coisas estão voltando a se normalizar.
O cheque é pago após muito tempo na fila. O rapaz sente fome e principalmente angústia. Deseja beber. Entra num supermercado e compra litro e meio de vinho e segue para os Correios. Tenta enviar quatro cópias de seu manuscrito para um concurso literário em São Paulo, mas o peso da correspondência ultrapassa os 500 gramas. Para ser exato: 530g.
- Só dá pra enviar por SEDEX, ou, o senhor pode dividir o volume em dois envelopes – informa-lhe a atendente.
- Obrigado, mas o SEDEX é o olho da cara - responde ele recolocando o material em sua sacola de pano.
Então Álvares resolve comprar alguns shorts e camisetas. E antes dele entrar numa loja, ele abre sua sacola, senta-se na calçada, destampa sua garrafa de vinho e bebe um pouco.

- O senhor pode experimentar ali nos fundos – fala-lhe a vendedora após conferir as roupas escolhidas pelo rapaz.
Álvares segue para o vestiário. Os shorts e camisetas caíram legal em seu corpo largo. Ele olha-se no espelho e por alguns instantes percebe-se um sujeito não tão feio com se julga frequentemente.
Depois ele segue no rumo do Ver-o-Peso, pensa em tomar uma cerveja no mercado de ferro, cartão postal da cidade, mas acha pouco conveniente dado que levava ainda muito vinho em sua sacola. Por isso, ele resolve entrar no Solar da Beira.
O Solar da Beira tratava-se de um solar construído em estilo colonial, assentado rente a Avenida Castilho França tendo os seus fundos voltados para a imensa Baía do Guajará. O lugar abrigava o Museu do Índio. Álvares gostava de beber ali. Uma escada dava acesso ao segundo piso, lá onde o pessoal da limpeza pública tirava uma soneca e jogava cartas em seu horário de almoço. O espaço era amplo, silencioso e limpo.
Álvares senta-se junto à imensa janela de arco pleno com gradil trabalhado em ferro, e observa a sua amada Baía do Guajará “como se fosse gente viva”, segundo suas palavras. O mercado cartão postal ao lado com suas formas retas lhe passa uma certa sensação de amparo, companheirismo.
Os barcos atravessam para Barcarena, turistas com suas câmeras digitais e com a pele excessivamente vermelha, observam achando tudo exótico sem perceberem que única coisa exótica ali são eles próprios. Alguns velhos estão sentados bebendo conhaque e conversando. Álvares observa tudo do alto de sua janela como se fosse um deus onipresente. Aquilo o distrai e ele sente vontade escrever. As palavras bailam em sua cabeça. Ele gosta da sensação. Há tempo não se sentia assim. Bebi mais um pouco.
Passando-se algumas horas ele tenta se levantar de sua cadeira e acaba caindo. Os garis, que estavam jogando baralho, caem na gargalhada. Ele se ergue naturalmente, olha para os garis e segue com sua postura esguia rumo a Academia Paraense de Letras a fim de inscrever sua obra no concurso anual.
Para sua frustração, a Academia estava fechada. Ele senta-se na calçada junto a uma mangueira e fica bebendo por algum tempo enquanto observa a ampla fachada do Corpo de Bombeiros. Ainda não seria dessa vez que ele conseguiria inscrever sua obra em um concurso.
- Outro dia eu volto – ele diz erguendo-se e seguindo em direção a uma boate, onde havia strip-tease a cada meia hora durante o dia toda.
Para sua surpresa a boate havia fechado suas portas fazia alguns meses. Só restava o lugar de onde um dia fora o Club’s Show Drink’s, ou melhor, o Clube C, conhecido também como o Novo Chuá. Tudo acaba um dia, ele pensa. Ainda bem que ele escrevera e publicara um artigo em um livro sobre a memória da cidade a respeito daquele lugar.
Então um grupo de homens de meia-idade surge na esquina. Eles também estavam procurando pela boate.
- Não acredito que fechou... a gente nem teve tempo de conhecer – um dos homens disse.
- Infelizmente – lamentou Álvares. – Era um lugar muito agradável. Shows a todo o momento e muita puta bonita. Mas vocês já foram à boate B Vermelho?


A boate B Vermelho só abriria a partir das 19h00min. Ainda eram 14h00min. Então eles seguiram até as boates da Rua Gaspar Viena. Mas havia apenas uma boate aberta. Lá entraram. Beberam algumas cervejas e seguiram para outra boate do Comércio. Havia belas putas ali. Muitas se chegavam faceiras. Um dos coroas seguiu com uma das putas para o quarto. Álvares só queria beber. E nisso ele estava se saindo muito bem.
Após as putas perceberem qual era a intenção deles, a de apenas beber, elas apenas se chegavam para pedir cigarros vez ou outra. Depois o coroa voltou aliviado. Havia fodido muito conforme suas palavras. Seus parceiros apenas sorriram.
Depois de algumas horas emborcando copos e ouvindo música brega, eles resolveram deixar o recinto. A tarde já ia embora. Todos já iam alto na bebida e muito bem com os seus sentimentos. Ainda pararam em um bar e tomaram mais duas. Depois seguiram adiante. Eles queriam beber no Ver-o-Peso.
A noite já havia dominado por completo. O grupo se desfaz. Era hora de apanhar um ônibus e voltar para suas vidas.
FIM
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Leia mais histórias de Álvares Rocha no blog Cachaça na Xícara

Um comentário:

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