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quinta-feira, 3 de março de 2011

Romance de Vidro – Mayara La-Rocque



Dando prosseguimento as minhas releitura dos textos da kamikASES – revista literária dos alunos do Curso de Letras da UFPA, 2010, ano I número I – choca-se contra Versos Rascunhos mais um kamikaze. Guiado por Mayara La-Rocque, aluna do Curso de Letras, Habilitação em Língua Francesa da UFPA, ‘”Romance de vidro” é um texto extremamente delicado, mas não se engane quanto a sua aparente e ilusória fragilidade. Pois, caros amigos e amigas da web, sua força, ataque e defesa estar justamente nisso. La-Rocque trabalha sua escrita numa mescla de sensibilidade e dureza, ou melhor, ela nos apresenta um texto nem seco e nem molhado e melado demais. Gostoso seu jogo de palavras, deixa o texto com um ritmo agradável e fácil de ler.

“Como não viu que ela era de vidro, ele pisou. E ela, sendo de vidro, quebrou. E ela, sendo de vidro cortou-se e cortou”.

Ou seja, tenham cuidado para não se cortarem e sangrarem até morrer de paixão nesse romance de afagos e dores.    

ROMANCE DE VIDRO
por Mayara La-Rocque*


LÓRI ACORDOU AINDA ERA CEDO, quando o sol ainda parecia sentir frio. Sentou à beira da cama, desprendeu-se dos lençóis ainda marcados de uma noite de desesperos molhados pelo tempo que não se viam, pelo tempo que não se amavam. Deixou seu corpo nu, estático e exposto àquele ar frio misturado com o gosto vulgar do passado. Consumiu o tempo olhando para claridade do quarto que lhe era comum vindo daquela mesma janela sem cortinas. Pensou que as cortinas já deveriam estar lá; que aquele chão não deveria se tão oco e gelado, e que a TV deveria estar desligada. Desligou a TV. Olhou para ele, em sono profundo. E vidrada em sua imagem, como se fosse dentro de um sonho, disse condensadamente e baixinho:

- Estou perdida dentro de uma fortaleza. Dentro do meu corpo que você não desbravou. Dentro dos meus pés e dedos apertados, que sempre estiveram dentro de um sapato que você não descalçou. Dentro de minha mão lisa e escorregadia que você não conseguiu segurar. Dentro dos meus pêlos e tez que você tocou, buliu, apertou, mas nunca sentiu. Dentro de cada ponta de cabelo meu que você muitas vezes acariciou, mas depois foi arrancado de um por um. Foi quando eu me revirei do avesso, e tudo amargamente fez sentido, pois você, ainda assim, não me viu.

Como se fosse num sopro, ele de súbito, despertou. E ainda quando recuperou na memória o sentido da volúpia em vê-la naquele momento, abriu um meio sorriso, sussurrou em meias palavras:

- Me diga, você é de verdade?

- Sim. Mas cuidado, que eu sou de vidro.

Ela já não mais olhava para ele, já não olhava mais para nada, a não ser para o nada. Ele voltou a dormir.
Como não viu que ela era de vidro, ele pisou. E ela, sendo de vidro, quebrou. E ela sendo de vidro cortou-se e cortou.

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*22’, graduanda, hab. Língua Francesa. Escrever para mim, é algo que sai de mim, e não que pertence a mim. É uma força que diz. É o movimento que se forma. É a folha que cai, a flor que desponta o fruto que nasce e que é comido – o sabor que é vivido em minhas mãos. Depois de longa vida e existência, é a árvore que de tão velha tomba, e no nascer de sua velhice, semeia o processo de decomposição, de sua fatídica e profunda interna desorganização, para então atravessar e trocar a toda graça do ar, de todo gás, de luz e energia, do fluído e de outros ruídos entre outros seres, de outros organismos e prazeres vindos do céu e da terra.


Mais textos da autora:



   kamikASES revista literária: é uma publicação do coletivo KamiKaze em parceria com Centro Acadêmico de Letras – CAL/UFPA. Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, opinião da revista, sendo permitida a reprodução parcial ou total de textos, fotos e ilustrações, por quaisquer meios, sem autorização, desde que citada a autoria.
contatos: coletivokamikaze@hotmail.com




CONSULTA:


LA-ROCQUE, Mayara de. “Romance de vidro”. Belém: Revista Kamikases, Universidade Federal do Pará, n.01, 2010, p.09.

2 comentários:

  1. Adorei o olhar, Walter! Quem sabe este olhar não seja também de vidro, aquele que quebra, mas não rompe, por ser sempre caco, translúcido e transparente, por ser sempre de vidro. Como diria em uma narrativa do autor pernambucano Osman Lins acerca dos olhos de vidro, estes "são contempladores abstratos do eterno." Mesmo eterno, talvez, que paire em sua alma, e que por sua vez, apreendeu a tão delicada aspereza cortante do vidro. Obrigada pela releitura, Walter! Um beijo!

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