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quinta-feira, 31 de março de 2011

Viagem à Reserva Indígena Alto Rio Guamá em ocasião da Festa da Moça Tembé



Acertou-se para o dia 27 de setembro de 2010 a viagem para a Reserva Indígena Alto Rio Guamá, noroeste paraense no limite do Estado do Pará com o de Maranhão, em territórios dos municípios paraenses Garrafão do Norte, Santa Luzia do Pará, Nova Esperança do Piriá e Paragominas. A turma noturna do Curso de Geografia, a princípio, estava toda convidada pelo graduando indígena Aldo, que muito embora tenha tentado conseguir o ônibus, esbarrou em problemas de ordem financeira para o transporte. Ficando desse modo a viagem da nossa turma adiada para uma outra oportunidade.
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A notícia foi recebida com muita frustração por parte da maioria dos alunos, que já haviam até arrumado as malas, contudo, Aldo, Rebeca, Daniel e eu estávamos com vagas garantidas na van da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, como convidados de Aldo para viajar um dia antes, 26 de setembro de 2010, juntamente com Klaus Schmidt (etnógrafo alemão) e sua esposa Carla Schmidt (Geógrafa carioca), ambos equipados com modernas câmeras de vídeo e câmeras digitais para catalogar imagens e depoimentos da tradicional Festa da Moça para um projeto de pesquisa.

Em todo caso, os Tembé mantêm algumas práticas religiosas tradicionais, sendo a mais importante delas, na atualidade, a chamada Festa da Moça, que tradicionalmente faz parte dos ritos de puberdade de meninos e meninas (wiraohawo) e que antes era realizada como parte da festa do milho. A partir do início do primeiro ciclo menstrual, as meninas são isoladas do grupo e passam a observar certas prescrições alimentares (Márcio Couto Henrique).


Saímos de Belém no dia 26 de setembro de 2010, às 17:00 horas (horário de Brasília) pela BR-316, depois seguimos pela BR-010 até o município de São Miguel do Guamá e entramos por fim na PA-233, que nos levou até o município de Capitão Poço, onde ficamos pernoitando num posto da CASAI, sigla que não me recordo exatamente, mas é algo como Casa de Saúde Indígena ou Casa de Assistência à Saúde Indígena. Lá havia muitos remédios, uma dessas cadeiras que os dentistas usam para tratar seus pacientes estava inoperante e alguns cartazes do Ministério da Saúde fixados na parede. Daniel dormiria na cadeira odontológica, pois não havia trazido rede. O casal  Schmidt acomodou suas redes na varada, assim como Rebeca e eu. Carla estava muito contrariada por estar perdendo a festa na aldeia, mas não havia jeito de chegarmos lá naquela mesma noite. Sendo que, por volta das 22:00 horas, todos saímos para a praça de Capitão Poço para tomar umas cervejas e jogar bilhar. Ficamos até às 2:00 horas, depois voltamos para CASAI discutindo a respeito da mobilização acadêmica dos estudantes da UFPA, já em nosso alojamento, a conversa se centrou entre Daniel, o casal Schmidt e eu. Falávamos principalmente de filosofia e literatura. Discutíamos a obra de Nietzsche e queríamos saber a opinião do único alemão entre nós a respeito da obra, no original, de “Assim falava Zaratustra”, mas Klaus confessou que ainda não tinha lido a obra, apenas trabalhos sobre. Depois de muito bate boca intelectual, fomos todos dormir.  

 Na manhã seguinte, 27 de setembro de 2010, aguardávamos o transporte que viria da RIARG para nos levar até a aldeia, já que a van da FUNAI estava com um problema na suspensão para encarar o ramal que ligava Capitão Poço a reserva indígena. Sendo que por volta das 9:00 horas uma caminhonete da Secretária de Estado de Meio Ambiente - SEMA, apareceu dirigida pelo cunhado de Aldo. Então seguimos por cerca de 17 km até a margem do Rio Guamá. Atravessamos imensos pastos verdejantes onde se via criação de bovinos e grandes plantações de maracujá, limão entre outras culturas. A caminhonete seguia em alta velocidade pelo ramal recentemente raspado pela prefeitura. A morfologia do terreno variava bastante no que diz respeito a altitude, sendo que ora descíamos e ora subíamos como que querendo alcançar as nuvens mais altas. A poeira ficava em nuvens atrás de nós, e o céu estava de um azul espetacular sobre o verde vivo da vegetação circundante.
Mais adiante estava a aldeia Frasqueira, o alto rio Guamá já nos acompanhava a esquerda do veículo.
Por fim, chegamos.
No alto dos barrancos junto ao rio, se via algumas casinhas de madeira, outras de barro. Era a aldeia Frasqueira. No meio do rio de águas turvas, vinha se aproximando uma lancha de alumínio a fim de nos atravessar até a outra margem do rio. Uma grossa e comprida corda se estendia de uma margem a outra amarrada nas árvores mais grossas em suas extremidades. Por ela, um índio guiava a embarcação de uma margem à outra sem precisar de remos ou motor. Bastava apenas puxar a corda e a leve embarcação deslizava facilmente sobre as águas calmas.


A aldeia Frasqueira tinha uma unidade de saúde que estava fechada por falta de médicos, sendo preciso que os Tembé se deslocassem das aldeias até Capitão Poço para um atendimento. Nossos colegas pesquisadores ficaram por lá mesmo. Aldo queria que eu ficasse na aldeia Itaputyr, pois era lá que estava acontecendo a Festa da Moça. Aldo queria que eu colhesse todo o material possível para a redação de um livro sobre os Tembé do Alto Rio Guamá a partir de sua experiência de vida antes e durante a universidade. Era um projeto difícil de ser levado a cabo por um calouro, mas que ele confiava que eu pudesse fazer em consequência de minha experiência na área da literatura em prosa. Por isso, Rebeca, Daniel e eu não ficamos na aldeia Frasqueira e sim na aldeia Itaputyr, que ficava cerca de 1 km por uma trilha em meio à mata.
Contudo, não seguimos direto para Itaputyr, pois Carla pediu para Aldo, que retornaria até a cidade de Capitão Poço, comprar 15 kilos de peixes e outras coisas menores. Dissemos que queríamos acompanhá-lo. E assim seguimos o caminho de volta até o município. Fomos até um sítio onde se vendia peixes vivos tirados diretamente de um tanque artificial através de tarrafa lançada quando os peixes vinham comer a ração jogada pelo funcionário do local. Por volta das 13:30 horas fomos almoçar em um restaurante no centro de Capitão Poço. Alguns amigos de Aldo apareceram e começaram a conversar e a beber cervejas. Resultado: por ali ficamos até aproximadamente 15:00 horas. Depois uma outra caminhonete apareceu. Era um veículo da Fundação Nacional de Saúde – FUNASA, dirigido pelo primo de Aldo, o cacique Kohay da aldeia São Pedro. Logo em seguida fomos até um mercadinho, que ficava logo no início do ramal que dava acesso a reserva. Aldo comprou os cigarros de Carla e outras coisas mais, o cacique Kohay fez a sua compra e seguimos de volta à aldeia. O que mais me surpreendeu nas compras do cacique foi uma caixa de cachaça.

  
Regulava por volta das 17:00 horas e de longe se podia ouvir e ver a aldeia em clima de festa. Um barracão coberto de palha assentava-se no centro da aldeia, rodeado de casas de todos os tipos, incluindo alvenaria. Era o penúltimo dia de uma festa que havia sido iniciada há 12 dias.

a Festa da Moça tem duração de vários dias e reúne índios de todas as aldeias Tembé, além dos vizinhos Kaapor. Trata-se de um importante momento de reafirmação da identidade étnica, em que os índios se orgulham de afirmar que durante dias cantam em sua própria língua e dançam sem repetir uma música sequer (Márcio Couto Henrique).

Todos exibiam pinturas corporais e adereços de penas e plumas tais como braceletes e cocas. Havia muitas pessoas espalhadas pelo terreiro e o cheio de ervas queimadas e os tauaris (espécie de lasca de algum vegetal) fumados pelos indígenas mais velhos deixavam-nos como em um estado de torpor. Era muito estranho aquilo tudo para nós. Ali verdadeiramente houve o choque entre nossa cultura e a cultura deles.
Então Aldo nos levou até o barracão coberto de palha. Lá estavam reunidas as principais lideranças Tembé. Todos muito bem pintados de jenipapo, enfeitados de plumas e penas coloridas. Suas expressões eram graves e solenes. Fomos chamados para o centro do barracão e nos colocamos, ombro colado no outro, diante daqueles homens. Aldo nos apresentou como alunos da UFPA e seus convidados especiais para assistir a Festa da Moça. Depois ele passou a palavra para quem quisesse dizer alguma coisa. Basicamente, todos parabenizamos e agradecemos a oportunidade de estar prestigiando o evento junto deles. Carla nos encontrou e perguntou o motivo de temos demorado tanto para e logo em seguida perguntar se Aldo havia comprado os seus cigarros. O peixe ela aguardava comer assado noutro dia à beira do Rio Guamá.

Ao cair da noite os maracás começaram a soar juntamente com os cantos dos pássaros da floresta. Dentro do barracão o ritmo seguia cadenciado e marcado com precisão pelos vários maracás usados nas “canturias”, que falavam de coisas da floresta como os animais do dia e da noite. Os Tembé tinha um dos mais ricos repertórios musical do Brasil. As vozes acompanhavam os maracás numa combinação perfeita e emocionante. Enquanto o ritmo dos maracás seguiu firme e ritmado, as vozes poderosas dos homens se combinavam com os contraltos das mulheres num harmônico e inesquecível coro. No meio do barracão homens e mulheres aos pares dançavam de braços dados, girando e dando fortes pisadas ao chão em determinado tempo, formando uma roda. Uma dança tradicional do povo Tembé.
As “canturias” e danças seguiriam pela madrugada adentro. Agora havia mais gente dançando do lado de fora do barracão. A lua cheia estava coberta por uma densa nevoa e a única lâmpada que pretendia iluminar o terreiro parecia devorada pela nevoa esparsa. E eles giravam e davam pisadas ao chão conforme o ritmo dos maracás. Depois aconteceu um movimento naquela dança que eu ainda não tinha reparado: uma “barreira” formada por alguns indivíduos dançava ao centro da roda: ora avançando, ora recuando, ora girando e depois se recompondo em pares para logo depois se ajuntar à roda enquanto outro grupo formava outro “muro” de indivíduos, que executavam os mesmos passos.

Enquanto eu observava a dança, o jovem indígena Alan, que havia entrado naquele mesmo ano, assim como Aldo, na UFPA no curso de Direito, aproximou-se e ofereceu uma bebida feita do sumo da mandioca.
“Beba a bebida de nosso povo”, disse-me ele a passar para minhas mãos uma grande cuia cheia de um líquido amarelo. Eu tomei um bom gole.

 Eram 4:00 horas do dia 29 de setembro de 2010, domingo, quando começou um barulho de cornetas e gritarias para acordar os que dormiam. Acordamos meio atordoados e caminhamos para o barracão, onde já se iniciava os preparativos para o ritual da menina moça. Sobre a aldeia deitava-se um nevoeiro retirado de algum romance inglês, e o frio daquele horário da manhã só fazia o sono ficar ainda mais pesado e a rede irresistível. Tomamos café preto numa pequena barraca coberta de palha e depois voltamos para nossas redes.
Por volta das 8:30 horas eu já estava de pé novamente. Aldo havia sumido desde a noite anterior. Deixou-nos aos cuidados de Dona Fausta, sua tia, que nos hospedou e nos tratou muito bem em sua casa na aldeia Itaputyr. Resolvi perguntar o paradeiro de seu sobrinho no que ela me respondeu que Aldo estava na casa dele, na aldeia São Pedro, próxima dali. Logo em seguida ela me perguntou:  “Já vão vestir a moça, tu não vais ver?”. Tentei acordar Daniel para ele presenciar a cerimônia, mas meu camarada preferiu ficar dormindo. Rebeca já tinha ido. Então eu fui até lá.

No meio do terreiro ao lado do barracão, encontravam-se três meninas sentadas, uma do lado da outra, sobre o chão, pintadas completamente de jenipapo com longas saias brancas. Uma índia auxiliada por outra enfeitava as garotas com penas, colares e com o capacete (espécie de cocar com as penas para baixo), enquanto todos se reuniam ao redor do ápice da festividade da  menina moça com seus celulares e câmera digitais. Nossos colegas de viagem, casal Schmidt, não estavam por ali mais seus maquinários áudio-visual moderno, coisa que me intrigou bastante já que eles estavam ali para registrar aquele momento. Por outro lado, a equipe de reportagem do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT-Belém – com os quais estávamos dividindo a mesma casa - estava por lá já fazia três dias para montar uma reportagem de um pouco mais de 6 minutos, que seria exibida no Jornal SBT Pará do dia 30/09/2010. O que me chamou a atenção era a maneira como o repórter da emissora interrompia o cerimonial pedindo para o pajé repetir alguns gestos e palavras, como um diretor de peça teatral. Rebeca aproximou-se de mim com um celular que batia boas fotos, mas  filmava numa qualidade péssima. Ela me disse: “Walter, tu que vais ficar por ai? Então tira umas fotos pra mim”. Agora eu estava equipado e poderia fazer algumas imagens.

E assim, as meninas foram apresentadas à comunidade indígena pelo pajé como as mais novas mulheres da tribo, acompanhadas de outros três adolescentes que com elas faziam par.  O mutum, prato principal da festa, depois de assado é pilado junto com farinha até virá paçoca. Essa paçoca é distribuída pelas meninas-moça entre os participantes do evento dentro de uma cuia. Somente nesse dia as meninas podem comer das caças novamente, já que após o primeiro ciclo menstrual elas são retiradas da convivência em sociedade e passam a seguir um regime alimentar, onde caças grandes e pássaros são proibidos. Eu recebi a paçoca em forma de bolinha na palma da mão e comi e adorei o gosto, embora eu não fizesse à mínima ideia do que eu estava comendo.
Essa paçoca é distribuída pelas meninas-moça entre os participantes do evento dentro de uma cuia.
Depois trouxeram um macaco guariba esfolado e assado. Dava para ver os dentes branquíssimos do animal que mais parecia um boneco. Mas quando olhei mais de perto para tirar a foto, vi que o animal era bem real. Duas mulheres enfeitavam o guariba com cocar, uma pequena saia, plumas e um colar. Aldo Tembé me contou mais tarde que o guariba tinha uma função bastante peculiar. Segundo Aldo, a menina que olhasse para o guariba depois do mesmo arrumado e sorrisse era porque não era mais virgem. Depois houve mais danças e cantorias.


Segundo Aldo, a menina que olhasse para o guariba depois do mesmo arrumado e sorrisse era porque não era mais virgem.

Depois houve mais danças e cantorias.

Por volta das 13:00 horas, voltamos de um banho de rio para almoçarmos. Na pequena barraca coberta de palha, que servia como uma espécie de refeitório estava sendo servida, em médias cuias, carnes de porco do mato, nhambu e mutum. Um jovem índio nos pintou formas geométricas nos braços com jenipapo. Carla estava inconformada de ter perdido o rito principal da Festa da Moça, e me informou que na casa onde estava hospedada na aldeia Frasqueira mais seu marido, alguém havia mexido em sua bolsa e roubado dois litros de cachaça de Minas, presente de casamento que ela queria tomar numa ocasião especial como aquela. Também nos disse que informaram o horário errado para eles, sendo que o ritual de apresentação da menina-moça começou às 8:30 horas e eles vieram às 10:00 horas. Ela estava indignada com Aldo por ele ter os alocado naquela aldeia distante da festa. Ela estava revoltada com Aldo por ter dado dinheiro a ele para comprar 15 kilos de peixes, pois, segundo suas palavras, ela queria comer ao menos um peixinho assado na beira do rio, e até naquele momento ela não tinha visto sequer um peixe. Carla e Klaus, que diferente de sua esposa quase nada falava, estavam chateados e queriam ir embora, mas Aldo havia sumido de novo. Estava novamente para a aldeia São Pedro. E o horário que a van da FUNAI ficou de nos buscar na CASAI de Capitão Poço estava quase em cima. Precisávamos nos retirar dali algumas horas antes. Todos nós estávamos preocupados com nosso regresso, pois tínhamos compromissos na segunda feira de manhã. Então Carla e eu saímos para perguntar a um grupo de índios de meia idade se havia algum transporte disponível para nos levar até Capitão Poço, no que o único indígena com carro particular da aldeia respondeu-nos secamente: “O Bira (Aldo) trouxe vocês, o Bira leva vocês”.
O tempo ia passando e a tensão aumentando. Começávamos a cogitar a hipótese de irmos andando até Capitão Poço e de lá pegar um ônibus até Belém. Rebeca havia vindo sem dinheiro suficiente para uma passagem de ônibus. Ela estava seriamente preocupada. Falamos que daríamos um jeito. E quando já estávamos com as bolsas arrumadas e o coração saindo pela boca, mandara-nos informar que o senhor da frase: “O Bira trouxe vocês, o Bira leva vocês”, estava de saída para Capitão Poço naquele momento para levar alguns indígenas, e se nos quiséssemos ele podia nos levar até lá. O sorriso de alívio se estampou em nossos rostos.
Pajé Tembé
Todos nós estávamos realmente chateados com Aldo, que até naquele momento não dava às caras. Seguimos então pela trilha de 1 km até a aldeia Frasqueira para atravessar o Rio Guamá e por fim partir para nossas casas. Eu estava numa mescla de pavor e excitação. E para as crianças tembé a presença de Klaus Schmidt era um espetáculo devido suas características físicas peculiares: quase dois metros de altura, extremamente branco e olhos de um azul quase transparente. Ele passava as suas grandes mãos nas cabeças das crianças que se aproximavam curiosas enquanto seguíamos para atravessar aquele trecho do rio.

Foi então que surgiu Aldo andando e conversando muito tranquilamente em companhia de outro indígena. Ao nos ver a uma certa distância, Aldo parou e aguardou. Daniel e Rebeca seguiram adiante se recusando a falar com ele, os pesquisadores tomaram um rumo contrário indo bater até a porta de uma das casas para se despedir de alguém. Aldo observava essas ações com os olhos de interrogação, parado no meio do campo de futebol. Então eu resolvi ir até ele, no que meus amigos Daniel e Rebeca me censuram. “Vai lá então só tu. Eu não quero nem papo com esse cara. Eu não tô a fim de dar um soco na cara desse teu amigo otário. A gente vai te esperar pra ali”. Falou-me Daniel, que depois caminhou mais Rebeca para um barracão à margem do barranco. Aguardando-me ali.
Aldo me disse que estava dando atenção à sua família na aldeia São Pedro, e por isso não podia ficar o tempo todo conosco, e que ainda havia o agravante de sua mulher achar que nossa amiga Rebeca fosse sua amante. Segundo ele, as características físicas de nossa colega de curso eram semelhantes com as de uma mulher que ele dançou em uma festa em Capitão Poço alguns meses atrás. Também me contou que ele havia ficado muito chateado comigo pelo fato de eu ter me concentrado mais em outras coisas do que em pesquisar para o livro que eu havia combinado começar a escrever no próximo ano. Falou-me que já estava a caminho para nos buscar e que a van da FUNAI só sairia quando nós chegássemos. Já quanto aos pesquisadores, segundo ele, era problema dele.
A viagem de volta foi tranquila. Chegamos em Belém por volta das 20:00 horas.    
          
Parafraseando Malthus em sua obra “Ensaio sobre o princípio da população” o presente relatório poderia, indubitavelmente, ter sido tornado muito mais completo por uma coleta de maior número de fatos para elucidar o argumento geral, mas devido ao caráter mais recreativo do que científico dado por minha pessoa à viagem as citadas aldeias, impediram-me de dar ao assunto atenção indivisa.
De qualquer modo, o contato com a cultura indígena, seus rituais e até mesmo com o próprio Aldo, acendeu em meu espírito uma profunda percepção do outro, que me fizeram ver a mim mesmo.

O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única. (LAPLANTINE, 2003, p.13)

Os conhecimentos empíricos obtidos dessa viagem e do contato com Aldo, viriam se mesclar no semestre seguinte aos conhecimentos antropológicos numa disciplina chamada Antropologia Cultural, conhecimentos que me serviriam de base para redação desse relatório e reforçar minha maneira de ver o outro com menos etnocentrismo e preconceito. Do trajeto de 1 km da aldeia Frasqueira até a Itaputyr, notei alguns trechos com a vegetação devastada em processo de recuperação, e vim entender depois o histórico de lutas que esse povo trava com sacrifício e coragem há décadas para preservar seu território, sua cultura e identidade contra invasores carregados de preconceitos e interesses econômicos. Observei o quanto nossa cultura dita civilizada ainda tem que aprender com esse bravo povo, que a cada dia vem reafirmando suas tradições e o orgulho de ser Tenetehara. “De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa” (LAPLANTINE, 2003).
Seja como for, este relatório teve como objetivo fundamental evidenciar a experiência empírica do autor para futuros fins científicos que esta temática vier a suscitar.


    
CONSULTAS PARA ESTA POSTAGEM:

LAPLANTINE, François. “Aprender antropologia”. São Paulo: Brasiliense, 2003.
MALTHUS, Thomas Robert. “Malthus: economia”  São Paulo: Ática, 2005, p.51-52.
HENRIQUE, Márcio Couto. “Populações indígenas e a Terra do Alto Rio Guamá”. Atlas socioambiental: municípios de Tomé-Açú, Ipixuna do Pará, Paragominas e Ulianópolis / Maurílio de Abreu Monteiro, Maria Célia Nunes Coelho, Estêvão José Silva Barbosa; organizadores. Belém: NAEA, 2009.

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SÓ PRA SABER

O relato que você acabou de ler é totalmente real, assim como os personagens envolvidos, entretanto, os nomes das  pessoas envolvidas nessa aventura foram modificados a fim de preservar suas identidades.


MAIS SOBRE O ASSUNTO DENTRO DE VERSOS RASCUNHOS SEGUINDO OS LINKS ABAIXO:

  1. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/07/por-uma-mudanca-de-paradigmas-sobre.html
  2. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/11/os-indios-tembe-e-eu-na-tradicional.html
  3. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/12/conhecendo-nos-partir-do-outro.html


2 comentários:

  1. Muito lindo Walter!
    Deve ter sido algo emocionante.Um privilégio para poucos, poder acompanhar cerimônias assim.
    Um abraço amigo

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  2. E foi mesmo, minha caríssima Maria!
    Uma ótima experiência de vida.
    Obrigado por sua presença, que sempre ilumina nossas postagens.

    um grande abraço,

    Walter.

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