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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O dia do meu "desaniversário"




Dia 29 de setembro. Levanto da cama. Abro a janela do quarto. Vejo que o dia está cinzento e chuvoso. Hoje é meu aniversário, lembro-me então dos anos anteriores de lugares onde morei e passei essa data, ou pelo menos tento, pois, como diria Renato Russo – “já morei em tanta casa que nem me lembro mais, eu moro com meus pais”... Então é meu “desaniversário”. Recordo também das pessoas que passaram pela minha vida e que hoje se as visse na rua nem as reconheceria e vice-versa, amigos, amigas namoradas, parentes e etc. Olho a hora no celular e também vejo algumas mensagens dando-me os parabéns, todas com quase as mesmas palavras – feliz aniversário!... E todas essas bobagens que dizem para quem está completando mais um ano de vida e um a menos também. Dentre as mensagens tinha uma que valia a pena – feliz aniversário e muitos anos de cachaça! E convidando-me para beber... Era um colega dos tempos rasos e sem profundidade do cursinho, Marcio era o nome dele. Não respondi naquele momento, pensei em manter-me sóbrio nesse dia, queria ir  ver um filme no cinema, claro que não qualquer filme e nem em um cinema comercial, onde só se passa filmes comerciais feitos somente para serem vendidos, tendo como resultado filmes sem conteúdo que nada acrescentarão na minha vida. Tudo bem que há algumas exceções que sempre acabam poucos dias em cartaz. 
E enquanto as lembranças vinham em minha mente com intensidade sem que eu pudesse escolhê-las, eu entrava e saia do banho, tomava meu café e voltava para o quarto. Deitado novamente eu tinha nas mãos um livro que não demorou a ser posto de lado (Já faltavam poucas páginas). O livro era uma leitura de um escritor bem reconhecido no meio acadêmico, falo de Marques de Carvalho que tinha uma linguagem defasada e valores sociais da época ultrapassados também, de difícil compressão a um primeiro contato. Tendo como objetivo um auxílio ao leitor iniciante, que na maioria dos casos era quem estava estudando para o vestibular da UFPA (Universidade Federal do Pará), onde o candidato tinha que ser treinado para passar. Sempre me perguntava o porquê de não colocar leituras de livros que, mostrassem a sociedade atual, a resposta era simples: a consciência do povo é o medo do governo.
Decido então assistir a um filme no qual os personagens viviam em uma realidade alternativa ou futura, em que eram postos numa espécie de jogo voraz de sobrevivência, baseado num Best-seller, não demora muito para se notar a infantilidade do roteiro e conjunto ruim de atores na tela. Dou-me o luxo de ser crítico, pois, para quem já viu filmes com a direção de diretores como: Copola, Hitchcock, Ingmar Bergman, Felini, Chaplin... Com certeza tem um censo crítico para sétima arte. Mas continuo assistindo, então subitamente começo a pensar,  que grande filho da puta que sou? Não vou mesmo beber nada nesse dia? Porra é meu aniversário! (Que mais parece meu desaniversário).
Antes vou almoçar, tento sentar-me a mesa nela estão meus velhos, olho para meu pai, não consigo passar um minuto no mesmo lugar que ele. Às vezes não consigo acreditar que somos parentes, o cara jamais leu um livro. E ainda por cima é alienado pela televisão. Quando assisti um jornal, é só falando sobre crimes na cidade, o mesmo acontecendo no jornal impresso que ao folheá-lo só falta esguichar sangue no leitor.
Saio da mesa levando meu pequeno almoço, depois de acabar, marco pelo telefone com Marcio para tomar umas. Me visto e saio. No ônibus olhando pela janela vejo como um manto cinza de nuvens cobrindo a cidade, pois, em Belém é assim: não existe verão ou inverno, aqui se não chove o dia todo, chove todo dia.
Então cai a chuva. Quase que simultaneamente, vem-me a vontade de chorar, mas seguro, pois, falta pouco para que eu possa sentir como diria Bukowski o gosto do suco misturado com vida (álcool).
Ao saltar do ônibus a chuva não parece tão forte, decido então atravessar a rua. Todos correm dos pingos d’agua, e esquecem-se do quanto é bom sentir as gotas de chuva cair sobre o corpo. Chegando à praça da república o lugar parece sem vida e devastado diferente dos dias de domingo pela manhã aonde os pais de família vão com seus filhos sendo que, o sol e a criançada enche de alegria, aquela singela praça. Lugar onde se encontrava de todo tipo de pessoa, muitas do submundo, moradores de rua, hippies, roqueiros, góticos, homossexuais. Cada tipo deveria ter seu dia na praça, pois, parecia que esse era o dia do homo. Não tenho preconceito então sigo e encontro Marcio em um coreto rodeado. Ele fala ao telefone com Bruno que eu também conhecia das aulas de cursinho.
Não demora e Bruno aparece moreno mais forte fisicamente do que Marcio que, aliás, não dava para perceber pelas grandes camisas de roqueiro se Marcio era magro ou mais forte, o certo era sua cabeleira era escura e de estilo macarrão instantâneo.
- Bora pro bar tomar umas cachaças! – Diz Bruno ao chegar.
- Só se for agora! – responde Marcio
- Vamo então!
O bar era localizado perto da praça. Na rua... De esquina... De nome “meu garoto”. Faltavam poucos metros e já dava para ver que o bar estava fechado (lá se ia à oportunidade de tomar uma cachaça de jambu), mas ainda tinha outros bares, Marcio entra em um. Bruno e eu ficamos na calçada conversando.
 - E qual as novidades? – perguntou-me.
- Nada de mais! Só que faz uns dias que eu não bebo nada.
Essa reunião era só de amigos de copo. Então com certeza após uns goles o papo iria fluir... Marcio volta do bar com uma dose para o “teste”. Era uma cachaça de jenipapo com mel que ao descer pela minha garganta foi purificando a alma. Resolvemos experimentar outra, dessa vez nós três entramos no bar, o dono do bar nos deu então um gole de outra de jenipapo também, só que essa não tinha mel em sua mistura. Bruno bebeu a primeira dose, Marcio a segunda e eu logo em seguida. Nós já erámos experientes no quesito bebida, mas todos nós sentimos a cachaça descer com força goela abaixo fervilhando os órgãos internos, e como um acordo dos três optou por essa. Enquanto estávamos na degustação do álcool, um velho que estava bebendo no balcão se aproxima de nós. Era baixo de chapéu vermelho e camisa do fluminense, ao lado do chapéu percebia-se que os cabelos brancos já o abandonavam e não podendo faltar um bigode estilo português. Nem percebi quando ele já estava falando de sua vida para nós.
- Tenho sessenta anos já, dois filhos formados, trinta anos de casado, uma amante e ainda dou no coro. Quando não levantar mais e ainda tenho minha língua e meus dedos.
Enquanto fingíamos ouvir ele vinha e apertava nossas mãos. Eu não via a hora de saltar fora daquele bar decadente com a cachaça.
Depois de pagarmos quinze reais pela garrafa, nos puxamos de volta para a praça da república, no caminho pela rua estreita, senti que com aquela garrafa nós iriámos ter um bom papo e eu conseguiria dispersar a catarse que se encontrava no meu subconsciente.
A chuva já tocava o solo e dessa vez parecia que seria forte o suficiente para encharcar nossas roupas. Voltamos ao coreto. Onde se encontravam os casais... Olhei em volta e vi duas gatinhas se beijando, eram morenas de uns dezesseis anos no máximo e exalavam sexo, enquanto que na direção oposta havia duas digo dois meninos adolescentes se... Brincando cheguei com as mãos na costa de Marcio quase que num abraço, tirei e nós três começamos a rir, eu ainda rindo, disse que era a influencia do meio. Com certeza todos ao redor ouviram. Márcio e Bruno começaram um papo, os dois já se conheciam de longa data, os dois moravam em Viseu...
Fiquei no lado, olhando para as gatinhas moreninhas do lado, uma delas não parava de olhar, a garrafa já ia mais da metade. Bruno então começou a fazer planos:
- Cara! To querendo ver se arrumo uma grana pro meu aniversário e fazer uma barca doida!
- Vai ter muita mulher lá? – Perguntei.
- Com certeza, mano!
- Mas não colando o velcro?
- Não lá, não!
Foi aí então que percebi que, os olhares se voltaram pra mim. Não disse por mal não, não sou um sujeito preconceituoso. Já me livrei disso quando quebrei as correntes e arranquei o que me cegava nos tempos obscuros e duvidosos de igreja. Falei só de brincadeira mesmo.
- Mas primeiro preciso fazer um arroz, bacana lá onde eu trabalho. – continuou Bruno -.
- E como é o esquema? – perguntou Marcio.
- A parada é o seguinte: lá onde eu trabalho é uma empresa fornecedora de materiais de construção. Eu fico na conferência, depois, por exemplo, que um caminhão de uma estancia qualquer faz o pedido, eu pego e coloco uma quantidade a menos do que está sendo vendida, sendo assim, o cliente paga pela mercadoria inteira, mas, na nota vai uma quantidade menor, então a diferença vai pro meu bolso. Que geralmente varia em torno de duzentos, trezentos reais, que eu divido com um camarada meu lá. Se não for dividido eu tenho que pelo menos fazer a cobertura pra ele fazer o esquema dele. Só que gente tem que tomar cuidado, que lá tem um “culhão” (todo lugar de trabalho tem essas porras!) que é doido pra alcaguetar quem tiver fazendo esquema, mas sei que ele também rouba lá.
Enquanto ouvia esse relato, fiquei analisando a situação, não só dele, mas do brasileiro que já tem a corrupção nas entranhas. Não querendo ser moralista, pois, quem garante que no lugar dele eu poderia fazer o mesmo? (mas eu mesmo não faria, eu tenho princípios) Mas é assim, no Brasil. Por exemplo, quando um cidadão pobre devolve uma maleta com dinheiro achada pelo mesmo, todo mundo xinga o cara dizendo que ele é burro e coisa tal... umas das heranças deixadas pelos nobres,  corruptos e literalmente filhos da puta estrangeiros que vieram foder com o Brasil colônia. E hoje só vemos os frutos dessa foda ruim para a plebe que ainda por cima é rude.
Marcio achou legal o esquema. E nossa garrafa já ia pelo fim, enchi o último copo, e traguei com decisão, e lembrei-me de quando acordei ensandecido para sentir aquele maravilhoso sabor, o sabor da vida!  Márcio pegou a garrafa já vazia e jogou, com o efeito do álcool em minha mente, vi a garrafa sem vida girando várias vezes em câmera lenta antes de cair sobre a grama. Enquanto no meu celular Guns N’ Roses tocava...
Acabou o álcool, acabou o encontro. Descendo pelas escadas rumando em direção à parada de ônibus, na direção contrária vinham duas bibas e ficaram encarando Bruno.
Tomei um susto, quando vi falando alto:
- Que foi veado escroto? Nunca viu não?
- Tão bonito, não!
- Vai-te fuder sua bicha!
Acelerei o passo e perguntei o que tinha sido aquilo. Bruno respondeu-me num tom colérico:
- Não gosto de veado me olhando.
Falei pra ele relaxar... Márcio só ria da situação. Era o fim do encontro.

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