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sexta-feira, 8 de março de 2013

O MAIS NOVO POETA NA CIDADE


por Walter Rodrigues

Lucas Machado havia recebido 30 exemplares de seu primeiro livro de poemas pelos Correios. O trabalho gráfico estava perfeito. Digno de seu investimento. O mais novo poeta da cidade estava se sentindo em êxtase. A capa plastificada trazia o nome de sua primeira criação em versos ao centro “Versos Para ninguém”, o seu nome no cabeçalho e o nome da editora no rodapé. Folheou página por página sentindo o cheiro do papel novinho. Era como se fosse um sonho inalcançável que se tornou possível em questão de alguns meses e de dinheiro invertido. Então veio a pergunta que o fez voltar ao chão. “Como vou vender estes livros?”. E coisa já não parecia mais tão prazerosa quanto no início.
Lucas Machado não era um cara muito popular. De seus antigos amigos ele sequer sabia o paradeiro. Nunca fez questão de ligar para nenhum deles. Sequer havia guardado o número de seus telefones e nem mesmo seus e-mails. Ele não gostava de internet e nem de computadores. Lucas tinha uma velha máquina de escrever portátil. E ele trabalhava nela todas as noites. Ele só escrevia poemas, pois achava que a poesia era o único gênero literário realmente humano que conseguia se comunicar com o sublime. Sua primeira reprovação no vestibular veio dessa ideia. Uma dissertação foi exigida dos candidatos, mas Lucas resolveu surpreender a banca apresentando um texto em versos alexandrinos em rimas interpoladas. Tirou um zero bem redondo e foi reprovado apesar de ter tirado a maior nota do curso na prova escrita.  
Lucas Machado era excepcional. Quando menino escrevia versinhos para suas coleginhas no colégio. Elas sempre sorriam em sua cara lançando os papeizinhos de canto. Mas mesmo assim ele não desistiu de seus versos. Era um cara predestinado. Sua mãe já não vivia nesse mundo. Estava no céu cercada da glória de deus como numa certa noite sonhou acordando muito emocionado. Seu pai sequer havia conhecido. Morreu de cirrose numa esquina lá pelas bandas do Maranhão quando sua mãe tentava localizar seu paradeiro para dizer que ele tinha um filho macho que ainda não conhecia. Seu pai em vida foi um caminhoneiro bastante requisitado, apesar de alcoólatra. Não tinha irmãos ou irmãs. Sabia que tinha uns tios e primos vivendo em algum lugar do nordeste, mas não sabia como encontrá-los. Agora aos 35 anos de idade, solteiro por opção e dono de uma loja de peças de automóveis resolvera reunir seus poemas e lançar numa pequena tiragem através daquela editora especializada no assunto. O que eram 400 reais perto da grandeza de ver seus livros impressos com códigos de barra e ISBN e tudo? Muita gente vinha fazendo aquilo por todos os cantos do país. Mas nosso poeta não havia pensado em coisas como divulgação, lançamento e distribuição da obra. Como diabos os “Versos Para Ninguém” de Lucas Machado seria lido? Nem de internet ele gostava. Então a angústia veio tomando conta de tudo. Talvez pudesse vender para os seus três funcionários e tentar vender no balcão de sua loja aos clientes. Mas os seus três funcionários mal sabiam ler seus contracheques e o que o fazia acreditar que pessoas interessadas em faróis para carros, espelhos retrovisor, velas de ignição, adesivos com frase do tipo “Muleke doido” se interessaria por literatura de qualquer tipo ou gênero. E ele imaginava as caçoadas que seria alvo. “Poesias, Lucas, por acaso tu estás cagando pra dentro?”, ou, “Isso é coisa de menina, cara, cuidado viu? Foi assim que o veado lá perto de casa começou”.
Ele não tinha a quem convidar para um possível lançamento. E nem sabia como organizar uma noite de autógrafos. Pensou em contratar alguém para montar sua noite de autografo, mas ficou se imaginando sozinho sentado atrás de uma mesa com algumas pequenas pilhas de livros em cima, achou-se ridículo e amador. “Como Castro Alves conseguiu lançar suas ‘Espumas Flutuantes’?” ainda pensou. Castro Alves, sem dúvida, era muito mais popular e tinha muito mais amigos que nosso novo poeta Lucas Marinho. Todo o orgulho danado por aqueles exemplares deu lugar a uma angústia imensa para logo em seguida se converter em ódio selvagem.
Lucas Marinho pegou a pequena caixa de papelão, onde havia vindo os seus tão outrora amados “Versos para Ninguém”, colocou todos os exemplares dentro, caminhou até a porta da frente e jogou, junto ao monte de lixos da esquina, a caixa com seus livros.

Naquela mesma noite o caminhão de lixo passou. Uma caixa com livros novos de capas plastificadas em 4 cores e tudo, uma brochura perfeitamente acabada, chamou minha atenção e a dos meus dois colegas.
- Que livros são esses? – perguntou-me Cacá. – São novinhos, cara!
- São poesias – respondi folheando umas páginas.
- Porra, meu! – exclamou Cacá. - A minha mina adora essas paradas de poesias. Vou levar um pra ela.
- Ei Álvares! – chamei nosso outro colega, que sabíamos que já havia publicado poesias até no estrangeiro. – Dá uma olhada aqui nesses livros que eu achei. São todos do mesmo título e autor.
Ele se aproximou com seus passos vagarosos e pesados, acredito que seus constantes porres haviam lhe deixado andando assim, e sem dizer nada apanhou o exemplar que eu tinha às mãos e folheou algumas páginas. Logo um sorrisinho idiota estava lá, bem no meio de sua cara larga e redonda e meio bêbada.
- Não é a toa que jogaram essa merda fora – disse-me ele devolvendo o livro. – Puro lixo! Talvez até tu, Murilo, conseguisse escrever algo melhor. Mas faz em prosa, porque verso só rende para essas editoras oportunistas. 
Talvez ele se achasse bom demais. Quem ele pensava que era? Um gari que sequer conseguia fazer o seu trabalho direito. Sua demissão já estava engatilhada disso todos nós sabíamos até mesmo ele. Mas ele não parecia se importar nem um pouco. Parecia até mesmo satisfeito e contente com isso. Ele era um filho da puta de um doido vagabundo metido à merda.
Peguei a caixa de livros e guardei. Assim que eu tive uma folga levei alguns exemplares para algumas bibliotecas comunitárias do meu bairro. Eu sempre gostei de livros, mas nunca tive coragem de iniciar um parágrafo, mas depois que eu li aquele livro do poeta Lucas Marinho, me enchi de motivação. Afinal, qualquer um poderia ser poeta nos dias de hoje, só bastava ajuntar uns trocados.      

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