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sábado, 30 de novembro de 2013

Poema "ANOITECER" de Carlos Drummond de Andrade


A Dolores


É a hora em que o sino toca,
Mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É  a  hora  do  descanso,
mas   o  descanso  vem  t ar de,
o  corpo  não  pede  sono,
depois  de  t anto  rodar;
pede  paz   —  morte   —  mergulho
no  poço  mais   ermo  e  quedo;
desta  hora  tenho  medo.
Hora de delicadeza,
gasalho,   sombra,   silêncio.
Haverá  disso  no  mundo?
Ê  antes  a  hora  dos  corvos,
bicando  em  mim,   meu  passado,
meu  futuro,   meu  degredo;
desta  hora,   sim,   tenho  medo.

(Carlos Drummond de Andrade - in a Rosa do Povo,  Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 23-24.).



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