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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Quando os mortos saem para se embriagar



Era mais um daqueles dias de pensamentos pastosos. Para onde seguir em situações semelhantes? Não havia para onde escapar. O vento que vinha do Rio Guamá caía sobre minha face eternamente fadigada me levando para bem longe daquele ambiente academicista. Foi quando Luiz encontrou-me sentando sobre o muro de arrimo que tentava em vão conter a fúria daquele gigantesco rio. O sol já começava a declinar e a brisa da noite já se mostrava apetitosa e cheia de segundas intenções.
- Álvares, parceiro – falou-me ele. – Que bebes aí?
- Uma garrafa de cachaça – respondi passando um gole pra ele.
- Puta-que-pariu! Não sei como tu consegues beber isso sem nem mesmo fazer cara feia.
- Minha cara já é feia naturalmente.
Assim aquela garrafa começou a secar mais rápido do que refrigerante em copo de criança. Sabíamos que as coisas não estavam fácies para nenhum de nós dois e para quase todo o mundo. Por que se insisti tanto em vencer na vida? Por que as coisas que não precisamos precisam ser alcançadas? Um carro do ano, um mestrado, uma viagem para Europa, um celular de última geração, um computador porrada... Alguma coisa me fazia senti tanta raiva disso tudo que, não diferente do meu amigo Luiz, eu também gostaria que tivesse um novo começo e que essa sociedade na qual vivemos jamais tivesse acontecido.
- Nós já não somos mais nós e talvez nunca venhamos a ser nós mesmos, cara – falou-me Luiz depois de longos goles com seus olhos perdidos no verde rubro daquele crepúsculo sensacional.
Parecia que as coisas caminhavam para uma irremediável destruição. Os conceitos estabelecidos, as verdades que nos enfiavam goela abaixo pareciam desprovidas de autenticidade. Tudo soava estranhamente falso e as coisas não estavam caminhando para lugar algum aparentemente agradável. Era como se alguém tivesse derramado vinho sobre o script recém-impresso em uma impressora de jato de tinta. Tudo estava borrado e as cenas seguintes se mesclavam numa macha indecifrável.
- Luiz – retruquei – vai tomar no cu, camarada.
E rimos feitos dois dementes.
Estava havendo uma feira anarquista na Praça do Carmo e Luiz me lançou o convite para irmos lá enquanto ainda restava aqueles goles de cachaça vagabunda no fundo da garrafa. Aceitei de pronto, afinal, pensei que deveria ser algo bastante interessante uma feira do livro anarquista.
Chegando lá o que vi foram diversos jovens, quase todos tão barbudos quanto eu. Diferente do que eu imaginei, os livros estavam sendo comercializados. A feira anarquista não era diferente de qualquer outra feira regida pelo sistema capitalista. Os livros mais procurados eram os que custavam mais, obviamente. Aquilo me deixou frustrado e senti vontade de beber mais ainda. Assim fiz e comprei um imenso copo de cerveja. Luiz bebeu comigo e seguimos para tomarmos umas no Ver-o-Peso.
A noite já ia alta e as putas e bandidinhos de merdas que ocupam quase todo centro histórico de Belém vinham se chegando e nos pedindo dinheiro ou, no caso das putas, nos propondo sexo. Queríamos apenas beber, mas numa esquina qualquer com a Presidente Vargas, alguém nos levou o dinheiro e os cartões de meia passagem. Estamos fodidos e não havia como voltar para nossas casas e o pior de tudo, não havia mais dinheiro para bebidas.
Mesmo assim, subimos em um ônibus. Ao notar nossa situação embriagada, o cobrador mandou que nós pagássemos a passagem. E como estávamos totalmente duros, Luiz resolveu pagar nossas passagens oferecendo um mouse para o irritadíssimo cobrador. O cobrador não aceito a proposta e mandou o motorista parar o ônibus. Recusamo-nos a descer, estão fomos empurrados até a porta de saída e lá ficamos no meio da viagem.
Sem dinheiro e humilhados em público, resolvemos voltar andando. Nossas casas eram longe demais dali para que fossemos bem sucedidos nessa empreitada. Caminhamos por quase uma hora e ainda ali na Avenida Nazaré, despencamos numa calçada e lá nos rendemos. Não havia como seguir e nem como voltar. Era como se fosse nossas vidas aquela situação. Não havia como seguir em frente e não havia como retornar. Toda a nossa vida se resumia aquele instante.
Então eu apalpei meus bolsos e para minha surpresa meu celular ainda estava lá. Liguei para um amigo e expliquei a história. Eram quase duas horas da madrugada quando consegui falar com ele. Então ele veio nos resgatar. Luiz, jogado na sarjeta, não conseguia nem se erguer sozinho. Fui até ele, cambaleando e o ajudei a se por de pé e a entrar no carro.
Seguimos para casa do Naldo. Nosso salvador.
- Álvares que porra de cachaça foi essa que vocês beberam – falou-me Naldo com ar de risos.
- Foiii aaaa daaas meeelhores, caaara! – tentou responder Luiz.
Eu resolvi ficar calado, pois minha memória não conseguia esquecer aquela cena da expulsão do ônibus e de toda aquela arrogância daquele cobrador. Ele não era apenas um simples cobrador, ele era todo um sistema de governo sustentado na coesão, na exploração e na humilhação dos que não possuem dinheiro suficiente para passar a roleta. Eu estava terrivelmente puto e angustiado. 

(Walter Rodrigues).

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