Anualmente nos dias 10 a 12 do mês de setembro em São Sebastião da Boa Vista – Ilha do Marajó/PA, acontece o Festival do Açaí. Evento que reúne diversos artistas da região. Para quem gosta de ritmos como Fórro e Tecno-Melody executados em volume ensurdecedor, o evento é uma boa pedida. Cerveja gelada, gente bonita e amontoada em um pequeno espaço público: a praça. Um grande palco montado no meio de uma rua à beira-rio com gigantescas caixas de som de madeira em ambos os lados. E como que já não fosse suficiente tão parafernália sonora, soma-se mais uma daquelas aparelhagens de festas de Tecno-Brega, Tecno-Melody e todos os tecnos que por acaso ainda possa existir. Resultado: barulheira doida avançando pela bela madrugada marajoara somando-se a confusão, quebra-pau, que frequentemente ocorrem em ambientes dessa magnitude intelectual.
Tive a oportunidade de estar em São Sebastião da Boa Vista duas vezes neste ano de 2010. Primeiro em fevereiro pelo carnaval, que achei muito divertido e criativo, inclusive escrevi a respeito no link Carnaval em São Sebastião da Boa Vista – Marajó-PA. Já na segunda foi agora pelo Festival do Açaí.
Eu nunca tinha ido ao citado festival por justamente a data ser um pouco ingrata para nos deslocarmos de Belém. Cresci viajando no mês janeiro com meu pai, que é boavistense, para as Festividades de São Sebastião, que durante muito tempo foi referência de festividade de bom gosto e diversão na Ilha do Marajó. Eu sabia o que tinha sido e o que hoje era o Festival de São Sebastião, mas era-me desconhecido o tão falado Festival do Açaí. Por isso, resolvi mudar a rotina: faltei um dia de aula na universidade e embarquei para minha amada Veneza do Marajó. E o que presenciei não foi muito diferente do que observamos aqui em Belém nas abarrotadas casas de shows que organizam as famosas festas de aparelhagem, ou seja, barulheira infernal com ritmo e letra de mal-gosto, pessoas altamente embriagadas a fim de confusão e, claro, a porrada comendo solta aqui e ali.
A respeito do açaí, suposto grande homenageado da festa, eu só pude perceber no nome pintado no painel-frontal do palco e no cartaz a cima.
O Festival do Açaí não me passou a melhor das imagens. Pouco criativo, desorganizado e perigoso. Lembro-me de um antigo poema que escrevi sob o pseudônimo de Nautilus Karavelas para homenagear esse belo e município marajoara intitulado:
BRINCO DO MARAJÓ
Para São Sebastião da Boa Vista – Marajó-PA
Janeiro entrou rasgante, de súbito.
E no tricotar dos dias vagabundos
surges forte e entorpecente.
Exalando em cada sol poente
teu aroma vivo e quente.
O plangente crepúsculo arrebata-nos
ais no trapiche da praça.
Logo mais sobre o luar bisbilhoteiro
nos envolveremos por inteiro
ao som do rio-mar seresteiro.
De crista tu és o brinco do Marajó.
Festival do açaí e do Santo Padroeiro.
Tu és amor à primeira vista!
Paixão desmedida.
Presa a nós por um laço de fita.
Cidade de efêmeros amores fatais,
onde o sagrado é profano
e nossos gestos mais que insanos.
Lá somos mais que humanos.
Somos tudo e nada no iniciar do ano.
No vento o odor aliciador das matas
labirínticas excita a imaginação.
Desembarquem, meus amigos! Pois chegastes a São Sebastião!
Mais uma noite vencida. Sonhos vários, embora nenhum me viesse fazer sentido. Coisas de sonhos. Debatia-me de um lado para o outro da cama. O ventilador a berrar, o sol a aquecer minhas malditas telhas de amianto, ainda não era nem dez horas da manhã, e me era difícil continuar dormindo e sonhando. Então algumas batidas contínuas em minha porta de madeira. Abro a janela, sonolento. Por certo só poderia ser meu amigo Daniel, em plena nove horas da manhã. Esfrego os olhos e o que vejo me enche de boas sensações. Sim, era Rebeca. E como ela estava maravilhosa com aquele jeans colado em sua esplendorosa bunda. Vôo imediatamente até a porta. - Nossa! Quanto tempo... Que bom te ver novamente, Rebeca. - Não vai me convidar pra entrar, pequeno? - Sim! Entre! E assim ela entrou. Depois nos abraçamos. Senti uma ereção imediata. Rebeca também sentiu algo crescendo rigidamente contra sua cintura estreita. Eu estava tomado de tesão e não queria me desgrudar daquele rabo abençoado. Então agarrei os cabelos longos e ondulados de Rebeca, avancei com determinação meus lábios aos fartos e rígidos seios dela. Eu era um bebê a mamar a sua própria subsistência. No entanto, eu queria mais. E assim avançamos para minha cama e nos envolvemos inteiramente. Rebeca era incrível. Não havia camisinhas que agüentassem intactas dentro dela. Sua boceta dissolvia e misturava tudo e a todos, dentro dela, éramos e não éramos simultaneamente. Seu cheiro, o calor de seu corpo, seus beijos famintos, seus olhos escuros que nos levavam aos mais claros e límpidos cenários e aquela sua maneira de morder sutilmente o lábio inferior... Rebeca... E ela vai por baixo e por cima, de lado e de quatro. Rebeca conhecia todos os caminhos pelo simples fato de que todos os caminhos pertenciam a ela. E ela se vai porta a fora. Não me permite que a acompanhe até o ponto de ônibus. Eu só queria que ela me quisesse em tempo integral. Mas Rebeca conhece-me o suficiente para não cometer tal equivoco. E assim ela vai e eu fico.
Ontem, 02 de setembro de 2010, eu tive o prazer de prestigiar o lançamento da revista literária dos alunos de Letras da Universidade Federal do Pará, a revista Kamikases, que contou com o apóio e o patrocínio da Pró-reitoria de Extensão – PROEX e da Diretoria de Assistência e Integração Estudantil – DAIE.
Os autores da primeira edição da revista estavam quase todos lá, emocionados, falando sobre as dificuldades e as superações até a publicação. Contos, poemas, crônicas, história em quadrinhos, artigos e uma crítica cinematográfica sobre o filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, Brasil 1998, de Marcelo Masagão, compõe esta singular e ousada revista literária.
Digo singular pelo fato de ser a primeira revista literária que leio e até mesmo ouço falar aqui na cidade de Belém; e ousada pelo fato de alguns de seus autores apresentarem uma expressão artística para além dos dogmas estéticos da linguagem amordaçada e presa a moldes ainda provincianos.
“Acreditamos que não, acreditamos que necessitamos da expressão e comunicação Libertária, sem nos preocuparmos com juízos de valor, sem nos preocuparmos se agradamos ou desagradamos, sem nos preocuparmos se ferimos morais ou convicções quaisquer que sejam, sem nos preocuparmos com a crítica, até porque, para haver crítica, é preciso que alguém ouça nosso grito. Melhor gritar e ser ouvido, ainda que desagradando, incomodando, do que permanecer eunucamente mudo e servil.”
O trecho acima nos dá uma palinha da força desses jovens autores. Um grito, um brado que só mesmo alguém que passou muito tempo acorrentado poderia dar. Estas palavras me fizeram lembrar um grande mestre da literatura universal, Charles Bukowski, que em sua época já antevia uma língua inglesa americana renovada, superando velhos moldes em busca de uma nova forma de expressão mais livre e americana:
“ - Acredito que a língua inglesa é a forma mais expressiva e contagiante de comunicação. Para começar, deveríamos ser gratos por possuir essa dádiva única que é ter uma grande língua. E se nós a desmerecemos, estamos desmerecendo a nós mesmos. Por tanto, vamos escutar com cautela, tomar conhecimento de nossa herança, mas ainda ter a ousadia de explorar e assumir os riscos da renovação da linguagem...”
(...)
“ - Devemos esquecer a Inglaterra e o uso que fazem da língua que temos em comum. Ainda que a utilização que os britânicos fazem da língua seja refinada, nossa variante americana contém muitos poços profundos cheios de recursos ainda não explorados. Esses recursos continuam desconhecidos. Deixem chegar o momento apropriado e os escritores apropriados que um dia haverá uma explosão literária...”
(...)
“ - Nossa cultura americana – ela disse – está destinada à grandeza. A língua inglesa, agora tão limitada, presa à sua estrutura, será reinventada e aperfeiçoada. Nossos escritores usarão o que poderíamos, creio eu, de americanês...”
(...)
“ - Cada vez mais descobriremos nossas próprias verdades e nosso modo próprio de falar, e essa voz estará despojada de velhas histórias, de velhos costumes, de sonhos velhos e inúteis...”
Quando pela primeira vez entrei em contato com a literatura, foi com um romance de Machado de Assis, e confesso, senti um estranhamento constrangedor. Sua voz parecia vim de muito, muito longe. Bom, concluir que livros eram para pessoas cultas e não para mim. Até que em meu aniversário de 18 anos, minha mãe me presenteou com “O Alquimista”, de Paulo Coelho. Li o livro em um dia, e ali entendi que livros poderiam ser legais e até mesmo vitais. Claro, que através dos livros de Paulo Coelho eu descobriria um universo de escritores. Tão bons em suas literaturas que meu autor favorito acabaria sendo deixado de lado, por agora eu o achar insuficiente para a minha ganância literária. Paulo Coelho já não me diria muita coisa, mas me serviu de portal para adentrar nesse maravilhoso mundo das palavras.
Esta pequena biografia exemplifica uma situação corrente em nossa sociedade: leitores sendo iniciados com autores e textos ultrapassados. Certamente isso espanta a maioria, lembro o quanto terrível e exaustivo foi-me ler “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco para o Vestibular. Esta questão de leituras obrigatórias é um outro problema para o acesso de novos leitores no mundo da literatura. A verdade é que mais espantamos os interessados do que os seduzimos. Mas isso já é uma outra questão.
Com papel, edição e diagramação de alta qualidade, a Revista Kamikases, vem encher uma lacuna que há muito tempo esteve na expressão literária local. Esperamos que a revista não fique apenas restrita ao ambiente acadêmico, pois dessa forma ela estaria abafando sua notável grandeza e missão. Que ela possa estar presente nas bibliotecas públicas, nas bancas de revistas... enfim, que ela possa estar aberta para o público em geral, que embora sabermos ser bastante reduzido. Muitas vezes ouvir alguns escritores locais se queixarem que no Pará as pessoas não liam e não valorizavam os escritores da terra. Será que a culpa seria mesmo das pessoas que não liam os escritores da terra? Ou seria dos escritores e suas literaturas?
Há tempos eu sonhava em ler algo de algum autor paraense com a leveza, a universalidade e a liberdade de “A caronista” de Charles Alves e “Roxy” de Francisco Ewerton dos Santos.
Para ser mais emotivo e sincero, enchi-me de orgulho e esperanças ao ler esta revista. As coisas no mundo das letras paraense parecem estar mudando, e isso é bom. Parabéns a todos vocês que nos presentearam com esta revista!
Contato: coletivokamikaze@hotmail.com
REFERÊNCIAS
BUKOWSKI, Charles; Misto-quente. Tradução de Pedro Gonzaga. Editora L&PM Pocket, 2007.
kamikASES revista literária - ano I 2010. Edição n° 1. ISSN 2178-1559.