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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tropa de Elite e Elite da Tropa - verdades abissais


O Batalhão de Operações Policiais Especiais, BOPE para os íntimos, chega à praça de guerra. Estamos com gana de invadir favela, um puta tesão. Desculpe falar assim, mas é para contar verdade ou não é? Você vai logo descobrir que sou um cara bem formado, com uma educação que pouca gente tem no Brasil. Talvez você até se espante quando souber que estudo na PUC, falo inglês e li Foucault. Mas isso fica para depois. Vou tomar a liberdade de falar com toda franqueza, e, você sabe, quando a gente é sincero, solta o verbo e nem sempre as palavras são as mais sóbrias e elegantes.
Se você está esperando um depoimento bem educadinho, pode esquecer. Melhor fechar o livro agora mesmo. Desculpe, mas me irrito com as pessoas que querem ao mesmo tempo a verdade um discurso de cavalheiro. A verdade tem de ser convocada a comparecer, e ela só baixa no cavalo desbocado, que se recusa a filtrar a voz que vem do coração. Por isso, a verdade está mais para discurso de cavaleiro e de cavalo, do que para os salamaleques da corte. Esse depoimento é como se fosse minha casa. Ele vai ser belo, sublime e horrendo, como eu sou, como tem sido a minha vida. E como é a sua vida também, com toda certeza. Entre, fique à vontade. A casa é sua. No início você vai estranhar um pouco algumas coisas, mas depois vai se acostumar. Eu também estranhei no começo. Quando entrei pra polícia, estranhei muita coisa. Mas logo me acostumei. A gente se acostuma. Portanto, meu caro amigo, caríssima amiga — posso chamá-los assim? —, apertem o cinto e vamos em frente.

(Elite da Tropa, LUIZ EDUARDO SOARES, ANDRÉ BATISTA E RODRIGO PIMENTEL - Editora Objetiva. Trecho extraído da parte: Diário da guerra e do capítulo: Mil e uma noites).

Às vésperas das filmagens do segundo longa do filme Tropa de Elite, recordei-me da obra Elite da Tropa, livro que serviu de base para o maior sucesso do cinema nacional.
É comum se chocar diante das falas e das atitudes das personagens quando se assisti pela primeira vez ao filme, embora saibamos que tudo aquilo seja a pura realidade de nosso país.
Todavia o que me deixou mais surpreso e ao mesmo tempo satisfeitíssimo, fora eu ler nas páginas, principalmente da primeira parte do livro: Diário da Guerra, uma linguagem tão espontânea e eletrizante quanto à do filme.
No entanto, se tratando de literatura brasileira, o livro também é um marco. Desde o romancista paraibano José Lins do Rego, eu não encontrava um português tão solto, envolvente e, acima de tudo, brasileiríssimo. É claro que me dirão sobre Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues e etc.
Que fique claro, eu não estou defendendo uma literatura marginal, como a tão conhecida Geração beat, por exemplo, e muito menos uma literatura pornográfica como O Doce Veneno do Escorpião de Bruna Sufistinha. Evidentemente nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs trouxeram para o mundo das letras uma nova forma de encarar a realidade, de denunciá-la através da literatura. Já Bruna Sufistinha é um arraso nos filmes em que trabalha.
Anos antes, Nietzsche já havia nos ensinado como se escrever uma verdade sem precisar parecer profundo. Ele afirmava que uma verdade abissal tende a ser simples e clara. Suas verdades são tão profundas que até hoje para muitas pessoas elas ainda são inatingíveis. E os autores LUIZ EDUARDO SOARES, ANDRÉ BATISTA E RODRIGO PIMENTEL nos presentearam com esta outra verdade abissal:

“A verdade tem de ser convocada a comparecer, e ela só baixa no cavalo desbocado, que se recusa a filtrar a voz que vem do coração. Por isso, a verdade está mais para discurso de cavaleiro e de cavalo, do que para os salamaleques da corte.”

Bukowski soube contar uma história e ao mesmo tempo lançar dentro delas os seus pensamentos (Em Misto Quente, seu melhor romance). Henry Miller não soube. Suas análises nos perdem dentro do enredo. Miller era uma espécie de Nietzsche misturado com James Joyce. Essa mistura não ficou legal. Mas eles souberam passar suas mensagens como ninguém ao apostarem numa literatura sincera e sem adornos.
Minha intenção ao escrever isso, não era encher o saco de ninguém com análises longas e chatas, mas sim deixar claro que, não somente o filme Tropa de Elite, mas também o livro Elite da Tropa, foram um marco na história intelectual do Brasil.



Walter Luiz Jardim Rodrigues

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