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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Almoçando no Restaurante Popular




Era um enorme espaço. Na entrada e na saída, portas de vidro. Uma rampa dava acesso aos deficientes de cadeira de rodas e um jovem funcionário guiava os cegos. Inúmeras e idênticas cadeiras e mesas de plásticos ocupavam todo o imenso salão. Um enorme e branco forro PVC, além das habituais lâmpadas florescentes, abrigavam câmeras quase imperceptíveis. Duas grandes televisões exibiam o noticiário local, enquanto vinte ventiladores de parede lentamente negavam algo. E uma fila enorme se estendia da entrada a copa.
- Dois almoços – pediu Raimundo no caixa informatizado.
A impressora imprimiu duas notas amarelas. Passamos em uma catraca eletrônica e continuamos na fila.
- Parece que estão dando comida de graça - comentei.

Raimundo sorriu.
Quando éramos crianças, Raimundo nos aterrorizava com seus porres. Eu devia ter por volta de meus quatorze anos quando Raimundo chegou em casa caindo de bêbado. Ele sempre fazia a maior confusão por besteira. Eu o odiava por isso.
- Carmem! – gritava ele atirando o prato de comida contra a parede. – Esta comida está uma porcaria! Parece que tu nem sabes cozinhar!
Durante meus onze, doze e até treze anos eu suportei os excessos de Raimundo. Eu sempre torci para que minha velha encontrasse alguém capaz de fazê-la esquecer meu pai. Então pareceu Raimundo. Ele não era um cara de todo mal, mas não podia colocar o primeiro copo de cachaça na boca. Depois disso se tornava insuportável e violento. Vovó Conceição já havia avisado que o deixaria com mais furos do que um crivo. Ela provavelmente teria coragem para isso.
Certa tarde Raimundo apareceu como de costume bêbado e valente. Disse ser o Satanás encarnado, e que estava sedento por sangue. O hijo de puta queria nada mais nada menos do que o meu sangue. Mamãe lhe deu uma cagada segura na cabeça, e ele respondeu lançando uma panela de pressão que fervia ao fogo em sua direção. Mamãe recolheu-se para dentro do banheiro e a panela se chocou com força na parede espalhando feijão para todo lado. Ele nos deixaria com fome naquele dia. Caminhei com passos firmes em sua direção e lhe apliquei uns socos seguros na cara. Ele ia recuando em direção a porta à medida que eu lhe aplicava uma série de chutes a altura do abdome. Eu naquela época tinha um chute alto e potente. Então eu o encurralei à porta e lhe apliquei um chute com a palma do pé bem no meio de sua cara bêbada, no que ele chocou-se contra a porta fechada a arrancando do lugar e caindo pesadamente sobre ela na calçada de casa. Certamente o Satanás que estava encarnado em seu corpo havia se transportado para o meu. Eu queria ver o crânio de Raimundo esmagado, e por isso cuidei de ajuntar uma enorme pedra e quando ia lançá-la em sua cabeça, fui impedido por um vizinho que me agarrou pela cintura e me lançou dentro de sua casa me trancando em seguida. E eu andava de um lado para outro gritando para me saltarem, dando chutes na grade que me impedia de liquidar Raimundo que me olhava com um sorriso de escárnio na cara.
Depois daquele episódio, minha velha resolveria mudar-se do bairro. Ela me explicava que Raimundo era um digno de pena, que a culpa não fora dele e sim de Tia Maria por ficar inventando fofocas a respeito dele. Que a panela de pressão ele não jogou para pegar nela, que deveríamos oferecer uma segunda chance para as pessoas, que Raimundo mudaria, ele estava arrependido e até estava freqüentando as reuniões do A.A. Quanto mais ela falava mais ódio eu sentia dele e mágoa dela. E numa manhã ela arrumou suas coisas e de Vitória num caminhão e partiu para nunca mais voltar a morar ali. 

Restaurante do Povo assim se chamava o lugar. O programa que visava erradicar a fome no país não obteve os resultados esperados, e ainda havia muita gente passando fome. Aquele restaurante popular fazia parte do programa. De qualquer forma, ele diariamente erradicava a fome de milhares de trabalhadores do comércio. Para todos os lados se via gente com seus uniformes. Uns usavam vermelho, outros amarelo, outros azuis. Enfim, cores demais para meus olhos.
Dois reais e alguns minutos na fila eram o preço. Com dez reais se dava pra comer cinco dias ali. Eu não gostei de ficar na fila.
E as pessoas comiam e conversavam, mais conversavam do que comiam. Vozes velozes vagamente decifráveis violentavam meus ouvidos. Por que as pessoas falavam tanto? Talvez para dar escape a alguma forma de pressão.
O lugar era terrivelmente asséptico. Você poderia beber água nos sanitários sem problema algum. Eu não estava com sede.
Então seguimos até a copa, vagarosamente. A fome aumentava, e eu observava. Entreguei minha nota e peguei uma bandeja de alumínio, os talheres e um copo plástico. Pousei minha bandeja num balcão de alumínio e caminhei de atendente a atendente.
Duas colheres de picadinho com batata, uma de macarrão e uma banana. Raimundo tentou pegar uma banana a mais. Não conseguiu.
- É uma pra cada – disse-lhe a atendente, rispidamente.
Raimundo trajava uma camisa branca de botões amarelados, calça jeans e um par de sapatos preto. A barba por fazer, os cabelos cortados rente ao couro cabeludo e sua pele escura tinha um aspecto patologicamente amarelada. Ele estava se recuperando de uma enfermidade. E eu não ia de forma alguma com sua cara. Na realidade eu não ia com a cara de quase ninguém. Mas, no caso dele eu tinha motivos de sobra para não ir. Encontramos-nos por acaso naquela manhã. Ele estava tentando uma indenização por acidente de trabalho, e eu estava tentando conseguir um emprego. Sim, um emprego. Uma amiga de Vovó Conceição trabalhava na casa do dono de uma empresa de informática como doméstica. E como eu tinha cursos relacionados, minha avó pediu para que sua amiga levasse o meu currículo e desse uma “forcinha” junto ao seu patrão. Ela garantiu que conseguiria alguma coisa ainda naquela semana. Pois, a esposa de seu patrão, era-lhe uma grande amiga, uma coração sem tamanho.
Então Raimundo convidou-me para almoçar. Eu aceitei.
Sentamos e comemos em silêncio, enquanto as vozes mescladas soavam como milhares de abelhas dentro de minha cabeça.
- Já vou, Raimundo – disse-lhe após a refeição.
- Já?!
- Já. Obrigado.
- E o emprego?
- Volto lá depois... o patrão não tava no escritório... Disseram-me que ele retornaria depois do almoço.
- Ainda é cedo.
- Eu sei... Vou matar o tempo na biblioteca.

Na avenida Presidente Vargas o movimento era intenso. Muitas pessoas indo. Muitas pessoas vindo. Eu ia pra uma entrevista de emprego e vinha da Biblioteca Pública do Estado. O sol nos dissolvia e as mangueiras compensavam com suas frondosas sombras. Havia túneis de mangueiras em muitas vias de Belém. Para todos os lados havia olhos, olhos que não enxergavam. Olhos civilizados.
Então eu enxerguei um senhor sentado na frente de uma loja. Ele parecia absolutamente concentrado em uma caixinha de papelão pousada sobre suas pernas. Constantemente ele arrumava algo no fundo da caixa. Aproximei-me e vi dois cachorrinhos. Eram dois belos cachorrinhos: um branco e um bege. Ignorava a raça dos dois. Deviam ser da mesma raça.
- O jovem quer compra um? – perguntou-me o senhor moreno e grisalho de olhos amendoados.
- Estou liso – respondi.
- Hum...
- São lindos.
- E são mesmo. A mãe deles teve sete! Uma bela barrigada. Quase todos machos. Estes dois aqui são fêmeas... Ninguém quase compra as fêmeas.
- Dão trabalho.
- Mas é só vacinar e aí elas não embucham.
- De qualquer forma dão trabalho. Eu gosto muito de cachorros, mas não gosto de ter trabalho.
- E quem é que gosta?
- Até mais, senhor.
- Até.
E subi, lentamente, a Presidente Vargas rumo ao escritório para mais uma de minhas entrevistas de emprego. Dessa vez eu havia sido indicado e falaria direto com o patrão. Entretanto, eu não tinha a menor esperança de conseguir. Talvez por não querer conseguir.

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Capítulo 24 extraído do romance "Correndo atrás", Walter Rodrigues. Ed. Multifoco, RJ, 2009 

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