quinta-feira, 4 de novembro de 2010

TORPEDOS


Editorial da kamikASES revista literária - ano I 2010. Edição n° 1. ISSN 2178-1559. Págs. 3 e 4.



Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música. Não é necessário ter harmonia ou violão. O essencial é querer cantar. Isto é, portanto, uma canção. Eu estou cantando.

Henry Miller, Trópico de Câncer.


Por que escrever, editar, imprimir e divulgar uma revista? Porque nos consideramos artistas, criadores, agitadores de um novo movimento, mesmo que em espaço reduzido e delimitado? Até gostaríamos de estar fundando um movimento estético, mas para isso, precisaríamos de uma geração dispostas a romper com uma vigência, mas… quem tem consciência para ter coragem, quem vai romper com os padrões que se ruminam tempo após tempo, o mais sempre do mesmo?!, ainda mais em tempos de poéticas tão isoladas, dispersas, e, muitas vezes, carentes de um projeto consistente… em tempos onde os aparelhos ideológicos do estado e a falsa democratização massificada das mídias diluem e escondem os discursos autoritários… Quem?!

Essa situação é nossa angústia: não saber ao certo quem é o inimigo, não saber a quem atacar, não saber de onde vem o tiro.

Contudo, essa angústia não elimina uma necessidade básica e raramente suprimida de todo ser-humano: a expressão e a comunicação Libertárias, Anárquicas: A Contra-comunicação.

Na ânsia ociosa dessa necessidade, busca-se o melhor meio de supri-la, e este é sem dúvida a Arte. A linguagem poética é a mais libertária forma de expressão, a crítica pode até tentar cerceá-la, cercando de teorias, regras e classificações, padrões, hierarquias e cânones. Mas, é justamente quebrando as regras que a ela impõe que a arte sobrevive, se renova e (se) reinventa. Por meio da arte, pode-se [re] criar o universo, montar uma realidade paralela toda feita de signo. A ‘artinventiva’ é o verdadeiro espaço de democratização da linguagem, onde pode-se criar a sua própria negando todas as regras técnicas, gramaticais, morais, ideológicas. Negando a própria arte, deslendo e desconstruindo a tradição.

a arte transcende. a arte se [sub] verte e se [re] cria numa seqüência histórica [auto] remissiva de signos interpretantes… a arte é perigosa

Ela é perigosa, pois, produzindo-a, encontramos, enfim, o inimigo contra o qual lutar: o tão “admirável mundo novo” que é o padrão, a robotização, a maquinização, a tarefa ideológica da homogeneização. Tudo aquilo que nos cala e nos nega alteridade , que nos situa no mundo como meros fantoches ouvintes/receptores e nunca como falantes/produtores. Nós ouvimos (a televisão, a música no rádio, o jornal, a autoridade e até a Voz do Brasil!) e nunca somos ouvidos, como se não tivéssemos nada a dizer, assim, nos relegam à pior forma de isolamento: aquele, entre um mar de vozes, onde a sua se dilui, se perde e não é ouvida.

A expressão artística consciente, que se inscreve historicamente, que traduz para sua linguagem os signos de seu tempo e de um passado que pretende ler e iluminar em face de um projeto do presente que se projete para o futuro, como roteiro de uma nova história, põe em cheque toda forma de autoritarismo ideológico e estético dos meios de comunicação da suposta era das mídias democráticas. A representação do discursos e padrões por meio da metalinguagem, do signo icônico, que interpreta, crítica e evidencia sua vacilação, põe em colapso todos os padrões, toda a certeza, criando linguagem e estéticas próprias.

a produção artística é contra-poder, contra comunicação, libertação

Na aldeia de pedra que semeia ferro, somos sós, somos todos inelutavelmente sós, o sujeito [pós-(?)] moderno é terrivelmente só (ou você nunca sentiu a “punhalada” de que fala Baudelaire? Ou nunca esteve fora da roda, “como a dama da noite”?). O romance, como gênero literário da modernidade, é uma prova disso, basta lembramos as palavras de Walter Benjamin: “A origem do romance é o individuo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los”.

a escrita é uma experiência solitária. devemos, por tanto, guardar o que escrevemos em um baú ou queimar tudo?

Acreditamos que não, acreditamos que necessitamos da expressão e comunicação Libertária, sem nos preocuparmos com juízos de valor, sem nos preocuparmos se agradamos ou desagradamos, sem nos preocuparmos se ferimos morais ou convicções quaisquer que sejam, sem nos preocuparmos com a crítica, até porque, para haver crítica, é preciso que alguém ouça nosso grito. Melhor gritar e ser ouvido, ainda que desagradando, incomodando, do que permanecer eunucamente mudo e servil.

Nós não temos grandes pretensões, só queremos cantar, pouco importa se saímos do tom ( os essencial é querer cantar), pois é exatamente como disse Oscar Wilde: “Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós preferem olhar as estrelas”.

Assim, te convidamos ( tu que estás se dispondo a ler isto neste momento) a fazer o mesmo. Somos todos cantores, basta ter pulmões e querer cantar.

Canta, Berra, Escarra, Vomita, Esporra, Regurgita tuas neuroses…


Francisco Ewerton dos Santos

reinaldo guaxe


  • Leia também o post

KamikASES é o nome da mais nova revista literária do Brasil

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

MULHER ESTRANHA, MULHER ARANHA


em sua teia de estrelas quedo-me preso

debater-se é inútil

estou perdido

fascinado

apaixonado

mulher estranha

mulher aranha

sua aproximação é letal

faceira e cheia de manha

aproxima-se e me assanha

mulher estranha

mulher aranha

me é fatal querê-la

antes me quer para alimentar

seu ego desmedido

estou perdido

fascinado

apaixonado

maldito coração que a paixão arranha

mulher estranha

mulher que arranha

mulher aranha

(by Walter)


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

XXV FESTIVAL DO AÇAI. Eu estive lá.


Anualmente nos dias 10 a 12 do mês de setembro em São Sebastião da Boa Vista – Ilha do Marajó/PA, acontece o Festival do Açaí. Evento que reúne diversos artistas da região. Para quem gosta de ritmos como Fórro e Tecno-Melody executados em volume ensurdecedor, o evento é uma boa pedida. Cerveja gelada, gente bonita e amontoada em um pequeno espaço público: a praça. Um grande palco montado no meio de uma rua à beira-rio com gigantescas caixas de som de madeira em ambos os lados. E como que já não fosse suficiente tão parafernália sonora, soma-se mais uma daquelas aparelhagens de festas de Tecno-Brega, Tecno-Melody e todos os tecnos que por acaso ainda possa existir. Resultado: barulheira doida avançando pela bela madrugada marajoara somando-se a confusão, quebra-pau, que frequentemente ocorrem em ambientes dessa magnitude intelectual.
Tive a oportunidade de estar em São Sebastião da Boa Vista duas vezes neste ano de 2010. Primeiro em fevereiro pelo carnaval, que achei muito divertido e criativo, inclusive escrevi a respeito no link Carnaval em São Sebastião da Boa Vista – Marajó-PA. Já na segunda foi agora pelo Festival do Açaí.
Eu nunca tinha ido ao citado festival por justamente a data ser um pouco ingrata para nos deslocarmos de Belém. Cresci viajando no mês janeiro com meu pai, que é boavistense, para as Festividades de São Sebastião, que durante muito tempo foi referência de festividade de bom gosto e diversão na Ilha do Marajó. Eu sabia o que tinha sido e o que hoje era o Festival de São Sebastião, mas era-me desconhecido o tão falado Festival do Açaí. Por isso, resolvi mudar a rotina: faltei um dia de aula na universidade e embarquei para minha amada Veneza do Marajó. E o que presenciei não foi muito diferente do que observamos aqui em Belém nas abarrotadas casas de shows que organizam as famosas festas de aparelhagem, ou seja, barulheira infernal com ritmo e letra de mal-gosto, pessoas altamente embriagadas a fim de confusão e, claro, a porrada comendo solta aqui e ali.
A respeito do açaí, suposto grande homenageado da festa, eu só pude perceber no nome pintado no painel-frontal do palco e no cartaz a cima.
O Festival do Açaí não me passou a melhor das imagens. Pouco criativo, desorganizado e perigoso. Lembro-me de um antigo poema que escrevi sob o pseudônimo de Nautilus Karavelas para homenagear esse belo e município marajoara intitulado:

BRINCO DO MARAJÓ
Para São Sebastião da Boa Vista – Marajó-PA

Janeiro entrou rasgante, de súbito.
E no tricotar dos dias vagabundos
surges forte e entorpecente.
Exalando em cada sol poente
teu aroma vivo e quente.

O plangente crepúsculo arrebata-nos
ais no trapiche da praça.
Logo mais sobre o luar bisbilhoteiro
nos envolveremos por inteiro
ao som do rio-mar seresteiro.

De crista tu és o brinco do Marajó.
Festival do açaí e do Santo Padroeiro.
Tu és amor à primeira vista!
Paixão desmedida.
Presa a nós por um laço de fita.

Cidade de efêmeros amores fatais,
onde o sagrado é profano
e nossos gestos mais que insanos.
Lá somos mais que humanos.
Somos tudo e nada no iniciar do ano.

No vento o odor aliciador das matas
labirínticas excita a imaginação.
Desembarquem, meus amigos!
Pois chegastes a São Sebastião!

abraços , walter rodrigues!

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Mais sobre São Sebastião da Boa Vista - Marajó - PA em Versos Rascunhos clicando aqui:

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Batidas na porta


by Walter

Mais
uma noite vencida. Sonhos vários, embora nenhum me viesse fazer sentido. Coisas de sonhos. Debatia-me de um lado para o outro da cama. O ventilador a berrar, o sol a aquecer minhas malditas telhas de amianto, ainda não era nem dez horas da manhã, e me era difícil continuar dormindo e sonhando. Então algumas batidas contínuas em minha porta de madeira.
Abro a janela, sonolento. Por certo só poderia ser meu amigo Daniel, em plena nove horas da manhã. Esfrego os olhos e o que vejo me enche de boas sensações. Sim, era Rebeca. E como ela estava maravilhosa com aquele jeans colado em sua esplendorosa bunda. Vôo imediatamente até a porta.
- Nossa! Quanto tempo... Que bom te ver novamente, Rebeca.
- Não vai me convidar pra entrar, pequeno?
- Sim! Entre!
E assim ela entrou. Depois nos abraçamos. Senti uma ereção imediata. Rebeca também sentiu algo crescendo rigidamente contra sua cintura estreita. Eu estava tomado de tesão e não queria me desgrudar daquele rabo abençoado. Então agarrei os cabelos longos e ondulados de Rebeca, avancei com determinação meus lábios aos fartos e rígidos seios dela. Eu era um bebê a mamar a sua própria subsistência. No entanto, eu queria mais.
E assim avançamos para minha cama e nos envolvemos inteiramente. Rebeca era incrível. Não havia camisinhas que agüentassem intactas dentro dela. Sua boceta dissolvia e misturava tudo e a todos, dentro dela, éramos e não éramos simultaneamente. Seu cheiro, o calor de seu corpo, seus beijos famintos, seus olhos escuros que nos levavam aos mais claros e límpidos cenários e aquela sua maneira de morder sutilmente o lábio inferior...
Rebeca...
E ela vai por baixo e por cima, de lado e de quatro. Rebeca conhecia todos os caminhos pelo simples fato de que todos os caminhos pertenciam a ela.
E ela se vai porta a fora. Não me permite que a acompanhe até o ponto de ônibus. Eu só queria que ela me quisesse em tempo integral. Mas Rebeca conhece-me o suficiente para não cometer tal equivoco.
E assim ela vai e eu fico.