sábado, 5 de fevereiro de 2011

kamikASES lançados contra a perpetuação de uma escrita caduca





- Machado de Assis – continuou Samantha -, escreveu sobre a sociedade de sua época de forma irônica, e se aprofundou no psicológico de suas personagens sem precisar ser vulgar e baixo. 
- O problema, Samantha – reagi bastante ofendido. – É que a mentalidade desse país ainda acredita que para um texto ser verdadeiro, profundo e sério, ele precisa antes de tudo ser enfeitado pela obscuridade. Quando que na verdade uma idéia sincera e profunda tende a ser clara e compreensível. Minhas narrativas têm um propósito, mensagens a ser passadas. Não me venha com essa conversa de escrever com um Português fiel aos princípios porque nem eu, nem tu e nem Machado de Assis usamos essa droga. Se o Português fosse tão fiel aos seus princípios, Samantha, com certeza ele continuaria Latim. E eu já estou de saco-cheio de Machado de Assis! (RODRIGUES, 2009, p.220-221)


O conto que vocês estão prestes a ler é de autoria de Charles Alves, estudante do curso de Letras da UFPA. O texto em questão faz parte da revista literária kamikASES -ISSN 2178-1559 – Ano I, Edição n° 1, que juntamente com mais 18 textos de diferentes gêneros formam a revista dos alunos do curso de Letras da UFPA. Ainda pretendo disponibilizar os demais textos aqui.
Por tanto, começo com o primeiro texto da revista: O conto A CARONISTA de Charles Alves. Texto porrada, que prende a gente à página da primeira a última letra. Pauline e Paulo eis o encontro mais engraçado que eu já tive a oportunidade de ler. Dois personagens que de tão bem construídos suspeitamos se não andam por aí mesmo. Em carne e osso. Pauline, “a bicha mais feia dessas bandas do mundo” pedindo carona às duas da madrugada, e Paulo dirigindo o seu caminhão em alta velocidade pelas BRs da vida, embriagado, mas sem cigarros e sem uma foda para confortar sua alma.
Em minha opinião, este texto de Charles Alves, deixa transparecer a essência e o brado libertário que a revista transborda desde sua capa curiosa (retirada da propaganda do xarope São João, 1912, onde se observa um sujeito oprimido por força maior, embora tentado lutar, e as palavras em caixa alta como se saindo aos berros de sua cabeça, pois de sua boca não podia “LARGA-ME… DEIXA-ME GRITAR!”), passando pelo editorial Torpedos”, aqui postado, que eu considero um verdadeiro Manifesto contra toda forma de tentativa de subjugação à escrita a padrões estilísticos retroativos, criando desse modo uma literatura de fundo falso, ou de fachada, onde se vêem as coisas aparentemente bonitas e bem pintadas, o que se quer que se veja, mas que no fundo é desprovida de conteúdo, realidade real. Ignorando que: a arte transcende, a arte se [sub]verte e se [re]cria numa seqüência histórica [auto]remissiva de signos interpretantes… a arte é perigosa   (SANTOS e SANTANA, 2010, p.04).
     
Seja com for, agora, finalmente, peguem carona com A CARONISTA.


A CARONISTA
por Charles Alves*


Dirigia a 90 km por hora, completamente embriagado pela estrada a qual apenas seus faróis altos iluminavam. A garrafa de whisky vagabundo já ia pela metade e estava depositada no banco do passageiro. Não tinha medo de dormir, já haviam cochilado no volante antes e isso nunca o impediu de chagar onde queria. Seu caminhão ia sempre retilíneo pela estrada que parecia uma lança cravada no meio da mata, no meio do nada. Do lado direito, mato, e do esquerdo, mato.
Já era duas da manhã, há duas horas ele havia fumado o último cigarro e desde então não passou por lugar nenhum que tivesse uma carteira de qualquer merda para vender, e ainda faltava pelo menos duas até chegar a qualquer lugar onde pudesse encontrar alguém. Não que quisesse alguém em especial, mas naquela noite havia decidido que não dormiria no banco do caminhão de novo, e sim com uma putinha requenguela qualquer cuja companhia não passe de 30 reais.
Viu algo estranho mais a frente, foi diminuindo a velocidade, se atropelasse algum bicho desgraçado que amassasse seu pára-choque, a noite estaria realmente arruinada. Mas não era bicho, pelo menos não parecia enquanto o caminhão se aproximava a 40 por hora, era… era… Alguém? Que diabos alguém estaria fazendo nessa BR do diabo às duas da manhã pedindo caroba? Ah, foda-se, já estava bêbado mesmo, parou o caminhão, a porta se abriu e o caronista entrou.
Rapaz de seus vinte e poucos anos, vestido de uma mini-saia rosa gritante e um bustiê verde, sorriu um sorriso de quatro dentes ao entrar no caminhão.
“Boa noite senhor?” disse de modo afetado “estás indo para lá?” apontou pra única direção possível. O motorista pensou: “além de bicha ainda é burra”.
Acenando positivamente com a cabeça, ligou o motor enquanto analisava a recém adquirida carga. Estava realmente chocado com a aparência do caronista. O que lhe chocava não era a pouca idade, ele podia ser seu filho (e de fato, seu filho mais velho deveria ter essa idade). O que lhe incomodava no rapaz era pura e simplesmente sua feiúra, sim, sua feiúra, pois era feio de doer. Seu rosto moreno estava coberto por marcas de espinhas mal espremidas e inflamadas, seu cabelo maltratado estava pintado de uma cor que de tão desbotada lhe lembrou do que cagou pela manhã, e percebeu assim que este entrou sorrindo no caminhão que só possuía 4 dentes na parte superior da boca, seu corpo era magro e cheio de marcas velhas do que pareciam ser antigas piras, sem dúvida era a bicha mais feia que ele já tinha visto, tão feia que ele ficou sóbrio na hora, e foi com grande surpresa que percebeu que estava de pau duro.
Tentou perguntar alguma coisa, mas de tanta consternação as palavras morreram em sua boca, em seus 44 anos de idade nunca havia tido qualquer tipo de atração por indivíduos do mesmo sexo, em bares, dizia em alto e bom tom o quanto achava ridículo esse tipo de comportamento e repetia sempre que o único remédio pra curar viadagem era aplicado com umas boas porradas. Mas agora estava ali, sentado do lado de uma bichinha fulêra e não conseguia disfarçar que estava de pau duro. PAU DURO!!! gritava silenciosamente para si mesmo, “tenha vergonha seu velho, pelo amor de Deus, estás de pau duro!! Velho, pelo amor de Deus, estás de pau duro!!”.
Controlou-se dando profundas inalações de ar, olhou de soslaio para o caronista e percebeu que este havia percebido a vergonhosa situação na qual estava. Teve vontade de encher aquele moleque sem-vergonha de porrada, mas ignorou tudo ao redor e começou a pensar em milhares de coisas, câncer no estômago, a megera de sua sogra, ferida com pus, e assim conseguiu se controlar até que sentiu o volume da calça diminuir gradativamente. Quando se sentiu mais à vontade, virou para bichinha pra dizer alguma coisa, mas assim que viu aquela face horrenda olhando de volta para ele, a tensão em sua barriga aumentou e seu pau ficou duro de novo.
“Não tem jeito” pensou ele “vou ter que comer esse viado”.
“Hummmm…” começou ele em tom grave  “se vamos acompanhar um ao outro, poderíamos ao menos nos apresentar, não é? Meu nome é Paulo e o seu?”
A bichinha olhou para ele com um olhar estrábico de alegria contida “nossa, que coincidência, o meu também!” um silêncio incômodo pairou sobre os dois e se seguiu por mais dois ou três kilômetros , até que o ambiente se tornou tão denso que o caronista arriscou “Senhor, Paulo, o senhor se incomoda se eu acender um cigarro?”
“Só se você tiver um para me dar, Paulo?”
A tensão sumiu no ar como malandro que é pego pela polícia rodoviária.
“Pode me chamar de Pauline.” Foi a resposta do caronista seguido por um “Mas esse é o meu último.” antes que qualquer pensamento se instalasse na cabeça do motorista as palavras saíram mais rápidas que sua vontade “Então bora deixar pra depois da foda!”.

Silêncio.

Pauline momentaneamente tensa, mas isso não durou muito, como macaca velha de estrada anunciou de supetão “300 reais!” o caminhão quase saiu da estrada, acompanhado por um estrondoso “FILHO DA PUTA!!!” mas logo o volante estava sob controle.
Com a cara fechada de raiva, Paulo parou o caminhão e logo disse “sua bichinha de merda, tá achando que esse teu rabo escroto é de ouro? Ou tu me dá essa merda ou te encho de paulada  e te jogo aqui mesmo na estrada!” era o fim das negociações.
Pauline fez um biquinho de magoada que só serviu para piorar as feições já admoestadas de seu rosto e para aumentar a raiva do motorista, que a essa altura já estava com a calça para explodir  “O que vai ser?” era o ultimato.

Interlúdio

O mundo da estrada possui leis e mandamentos que só são entendidos pelos seus habitantes, é ambiente novo e perigoso para aqueles que não estão acostumados aos seus caprichos e devaneios. Habitado por motoristas de ônibus intermunicipais, caminhoneiros, traficantes, salteadores, vagabundos, putas e caronistas, possui seus próprios códigos de condutas que não estão escritos em nenhum códex de leis, mas que é de acordo comum entre todos seus habitantes.
Um dos principais e inabaláveis códigos é o que diz respeito à carona, e é mais ou menos assim:
Não importa se o motorista está indo para o mesmo lugar que o caronista, nada vem de graça nesse mundo, nem o pão, nem a cachaça, portanto, há a necessidade de uma troca, pode ser uma graninha, uma informação valiosa ou no mínimo, um boquetinho. Quem não respeita esse código está à mercê dos caprichos da estrada, e não se engane, nem a mais reles criatura se encontra á prova dessa troca, nem mesmo Pauline, a bicha mais feia dessas bandas do mundo.

Fim do interlúdio

Os dois seguiram para trás do caminhão, para a área de carga, a qual Paulo abriu e Pauline adentrou primeiramente. A área de carga fedia a cocô de cabra e serragem molhada. Lá dentro, no escuro, meia dúzia de cabras se acotovelavam e berravam assustadas quando a aberração humana adentrou o recinto fazendo uma cara de nojo que, pasmem, a deixava ainda mais horrenda. Paulo entrou logo em seguida gritando imprecações para os quadrúpedes idiotas, segurou Pauline por trás, pela cintura e com um gesto violento a derrubou no chão e lhe deferiu um chute nas costelas que a fez encolher-se de dor, logo em seguida debruçou-se sobre a bichinha depositando todos os seus 87 quilos em suas costas.
Foram 3 horas de berros e gritinhos de dor e prazer no final. O sol se levantava no horizonte iluminado o caminhão inerte á beira da estrada. Paulo foi o primeiro a sair da traseira do caminhão, com uma expressão impassível deixou a porta aberta e foi seguindo para a cabine, onde se sentou no volante e ficou olhando o sol nascer. Pauline saiu logo depois, toda escabelada, mas com um sorriso de mona lisa com malária no rosto, saiu ajeitando a saia curtinha, trancou a porta da traseira e seguiu para boléia, sentando-se ao lado de seu amante.
Os dois seguiram juntos pela estrada por duas horas sem dizer uma palavra, até chegar à cidadezinha de Santa Inês, onde fatalmente se separariam. Paulo parou no posto, Pauline abriu a porta olhou para ele “Adeus meu Ursão” e assim desapareceu às 7 da manhã naquele fim de mundo.
Paulo abaixou a cabeça, sentindo um estranho aperto no peito, encheu o tanque e seguiu viagem. Percebeu que Pauline esquecera (ou deixara de presente) uma carteira amassada de cigarro no banco. Paulo pegou o último cigarro estropiado e sem tirar a mão do volante o acendeu, relembrando da noite passada, deu uma tragada e depois jogou o cigarro pela janela.
“Filho da merda! Cigarro mentolado é pra bicha!”
Deixando poeira para trás, seguiu na estrada até sumir onde a vista não alcança.



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* [dez’ 1983], criança magrela e cabeçuda, chorava por tudo. Aos 2 anos gostava de jogar cocô nos seus primos, aos 4 anos já sabia fazer chantagem emocional, aos 7 seu pai lhe ensinou o que era a mentira, aos 10 anos descobriu a amizade e aos 11 a traição. Aos 14 anos viu uma mulher nua (que não fosse sua parenta) pela primeira vez. A bebida descobriu aos 16 e a caneta aos 17. Desde então dedica seu tempo a ler e escrever e em horas forçadas estuda Letras na UFPA.


kamikASES revista literária: é uma publicação do coletivo KamiKaze em parceria com Centro Acadêmico de Letras – CAL/UFPA. Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, opinião da revista, sendo permitida a reprodução parcial ou total de textos, fotos e ilustrações, por quaisquer meios, sem autorização, desde que citada a autoria.
contatos: coletivokamikaze@hotmail.com





Publicado também no Portal Literal!




CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS


RODRIGUES, Walter. Correndo atrás. Ed. Multifoco. Rio de Janeiro: 2009, p.220-221. 

SANTOS, Francisco Ewerton dos; SANTANA, Reinaldo “guaxe”. “Torpedos”. Belém: Revista Kamikases, Universidade Federal do Pará, n.01, 2010, p.03-04.

ALVES, Charles. “A caronista”. Belém: Revista Kamikases, Universidade Federal do Pará, n.01, 2010, p.05-07.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

COMÉRCIO


by Walter Rodrigues






Os passos se atropelam.
LIQUIDAÇÃO!                                
Vozes diversas chamam
para si a presa apressada
que depressa se desintegra
fundindo-se ao mingau comercial.  

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

OS ENCANTOS DO SOBRADO SOBERANO*



por Walter Rodrigues 

O sol estampava-se sobre os antigos prédios da Rua Siqueira Mendes – Cidade Velha. O sol queimava-me a pele. O sol refletia-se nos pára-brisas dos carros estacionados. O sol incendiava-se nos azulejos de estrelas menores, azuladas estrelas de oito pontas numa fachada austera e ampla.
Portas e janelas com detalhes em arcos plenos e com chanfros, um largo balcão em grade de ferro batido, faustosamente trabalhado, apoiado por bacia frisada em massa.  Dois andares decorados em relevo e com requinte, duas águias de ferro tentando bancar as ameaçadoras, no entanto, seus olhos inspiravam tristeza e melancolia. Suas asas amplamente abertas. Seus bicos pendiam a frente de forma insolente e, neles, traziam duas luminárias antigas. Tristes seres de ferro guardiões de algo deteriorado e perdido no esplendo de um tempo passado.
No topo do prédio, acima dos telhados coloniais, centralizado entre dois grandes pináculos, um medalhão em massa a trazer em si a ilustração em relevo de uma humana e graciosa face jovem rodeada pela inscrição:

“FABRICA SOBERANA HILARIO FERREIRA & CIA., LTDA”


Então, o tempo fechou-se. Nuvens cinza sufocaram e seqüestraram o sol. O céu desabou. Corri para o outro lado da rua e entrei num bar próximo.

- Uma dose de conhaque – pedi ao senhor do balcão.
- Que chuva, não? – comentou ele.
- Pois é – respondi.

Enquanto isso, eu aguardava a chuva passar, mas ela não passava. Onde estaria Dora Ruth? Com aquele aguaceiro duvidava muito que ela apareceria ali. Ficamos de nos encontrar para juntos conhecermos a Fábrica do Guaraná Soberano internamente e recolher alguns preciosos dados que pudessem nos servi de base para elaboração deste texto. Estava anoitecendo e provavelmente a fábrica fecharia daqui a alguns minutos. Então servir-me de mais doses e resolvi não pensar mais no assunto.
E a chuva escorria sobre os azulejos decorados da fábrica e sobre as faces das águias. Tive a impressão de que uma das águias me olhava. Senti um friozinho a percorrer-me a espinha e, tomado pela curiosidade sinistra que somente o medo é capaz de inspirar, resolvi corresponder aquele suposto olhar. Aquele olhar desequilibrou-me; lágrimas escorriam daqueles tristonhos olhos de ferro e desciam pelo seu bico espalhando-se sobre a luminária antiga.
Então, aquele sombrio início de noite fora clareado, instantaneamente, por um extenso e luminoso relâmpago e, quando os meus olhos novamente puderam definir contornos e profundidades, me deparei diante de uma “nova” e retrograda realidade.

… O rio Guamá aos fundos a exalar lembranças de antepassados aventureiros enquanto um crepuscular, resignado vento lasso lambia o calçamento em calcário de lioz da estreita e aportuguesada Rua Norte à Freguesia da Sé. As luminárias aguardavam mais uma arejada noite a fim de exercerem suas funções. E, de repente, a imagem daquele soberano sobrado datado do final do século XVIII. Suas medidas: 2.200m², fixado em um lote regular de aproximadamente 14 m de largura e imensa profundidade a fazer limite com o rio Guamá, uma imponente construção que se aproveita de cada milímetro do terreno, alinhando-se, impecavelmente, à via pública.
Propriedade primária de Engenheiro Olympio Leite Chermont, filho de Antônio Lacerda, o Barão e Visconde de Arary, o prédio é composto de três etapas distintas: a parte frontal, com fachada à Siqueira Mendes; a parte posterior, com fachada ao rio Guamá e a ala central, responsável pela união das duas citadas partes. A fachada principal desfila pomposa em um neoclassicismo que, apesar de tardio em Belém, fora bastante expressivo devido aos exorbitantes lucros obtidos pela borracha no mercado internacional. Inúmeros retoques foram feitos nessa fachada sem que esta perdesse sua configuração original, embora em maior escala tenhamos hoje o ecletismo. Já a fachada posterior, nos inspira sonhos de mil e uma noites com suas linhas rígidas e portas e janelas com vãos em arcos abatidos lanceolados. Observável influência mouristica.
E então, uma rica e ornamentada escada confeccionada em madeira de lei. Resolvi subi-la após alguma hesitação. Um estreito tapete velho deitava-se com luxo sobre os degraus. Já no segundo andar, no salão principal e no hall da escada, o assoalho trabalhado em madeira de acapú e pau-amerelo, dispostos de tal modo a formar figuras geométricas assim como estrelas de várias pontas. O forro, igualmente ornamentado com tais imagens, embora menores, entretanto, com maior variedade de cores: branco, amarelo, cinza.

Entre conversas animadas, lavavam-se e rotulavam-se garrafas. Um amplo e iluminado salão, divido em várias secções, exibiam, em fileira, o mais moderno maquinário de então. A presteza e a eficiência do trabalho e, a luz natural que emanava das imensas janelas de duas folhas, derramava-se sobre os semblantes de funcionários satisfeitos. E, presidindo tudo isso, lá estava ele, bem ao centro da fábrica, com suas mãos firmes a apoiar-se no gradil ornamentado e, daquela retangular abertura no segundo andar comunicava-se com o coração da fábrica, no primeiro andar. Era o Sr. Hilário Augusto Ferreira, pioneiro na exploração industrial do guaraná no Pará e fundador da Fábrica Soberano. Nascido em Melgaço do Minho, Portugal em 1898, Hilário mudou-se para o Pará quando contava com seus 14 anos. De garrafeiro a industrial de sucesso, a vida desse industrial fora dedicada a sua fábrica.
E o sucesso do Guaraná Soberano da Fábrica Soberana fora tão estrondoso que a mesma passou a ser chamada de a Fábrica do Guaraná Soberano. Embora ainda viesse contar com as marcas: Kola, Laranjada, Genebra Soberano, Vermouth, Água Soda, Água Tônica, Ginger-Ale e ainda: Cachaça, Vinagre e Álcool Soberano.

A voz que fala e canta para planície.
(…)
A sorte encontrou seu endereço.

Pude apanhar no ar estas frases numa esquina estreita. Era noite, entretanto, a rua estava movimentada. Moradores atentos diante dos rádios.

E a casa premiada é… 150!

Gritos histéricos vindo de uma casa próxima. Alguém havia faturado algo. Antônio Rocha a apresentar nas noites de Domingo o programa “A sorte encontrou seu endereço”. Um caminhão cedido pelo patrocinador a servir como palco, onde artistas da terra e até de outros estados apresentam seus shows. A Rádio Clube cuida da organização estrutural como a montagem da iluminação e aparelhagem.   
E lá estava a sorteada desse Domingo recebendo sua caixa de Guaraná Soberano e outros prêmios, agradecendo a PRC-5 e ao patrocinador do evento, o Guaraná Soberano.
 Era o guaraná na boca do povo. Os jornais paraenses e periódicos de outros estados a comentar a qualidade da bebida: sim! O único guaraná genuinamente “fabricado com o puro guaraná de Maués”, a tribo indígena do Alto Amazonas. Refrigerante saudável capaz de solucionar problemas cardíacos, digestivos além de funcionar como um excelente estimulante e afrodisíaco. Era o que ressaltava os versos de poetas como Bruno de Menezes e Jacques Flores.
De repente, década 70. As fábricas de refrigerantes paraenses tentam permanecer de pé frente à desigual força das transnacionais. Dificuldades financeiras, a morte de Hilário Ferreira em 1982, os grupos estrangeiros como a Coca-cola e a Pepsi a devorar com gula todo o mercado local, a inexperiência dos novos administradores, Hilário Filho e Jaime Ferreira, resultado, fecham-se as portas em 1986, da Fábrica Guaraná Soberano.

… 1996. Produção incipiente embora constante. 400 caixas da Kola Soberano por dia enquanto a concorrência produz 1000 por hora. As portas se abrem após 14 anos. A distribuição conta apenas com um caminhão e é feita pelos proprietários da fábrica que, com recursos próprios vão tocando a indústria de seu avô.

“A fábrica experimentou seus melhores momentos nos anos quarenta e cinqüenta, mas não resistiu à concorrência das multinacionais que se assenhorearam do mercado de refrigerantes. Agora, vai reagir.”
   
-… Rapaz, rapaz – uma voz distante me chamava – tu adormeceste aí?!
- O quê…? – levantei minha cabeça de cima do balcão.
- A bela adormecida acordou? – comentou jocoso um velho de aspecto zombeteiro que bebia ao meu lado.
- Por sorte tu não és meu príncipe encantado – disse eu em tom amistoso.
- O diabo que te carregue! Querer eu acordar macho com um beijinho?
Eu sorri sonolento. O cara do balcão também, enquanto o velho esvaziava sua dose de cachaça pura.

A instalação industrial da Empresa Soberano surpreende à primeira vista com seu maquinário moderno e importado. Entretanto, o sabor e a popularidade dos atuais refrigerantes e, principalmente do guaraná ainda deixam muito a desejar. No entanto, a importância dessa indústria para o Estado, tanto no aspecto social, econômico, cultural é inquestionável. No ano de 2007, Hilário Ferreira fora homenageado pela Assembléia Legislativa do Estado com o título “Cidadão do Pará Pós-mortem” em reconhecimento ao importante papel que exerceu a indústria local.


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* O texto foi inicialmente publicado no livro CIDADE VELHA - CIDADE VIVA, Belém-PA 2008. O livro foi editado pelo jornalista e professor Oswaldo Coimbra, responsável pelo Grupo de Memória da Universidade Federal do Pará – UFPA, ministrante da oficina e condutor dos trabalhos de preparação dos textos e das ilustrações.
 


OUTRAS INFORMAÇÕES A RESPEITO



  • SOBRE O LIVRO "CIDADE VELHA - CIDADE VIVA" leia o artigo  do Jornal Beira do Rio no link abaixo:    





  • SAIBA MAIS SOBRE A FÁBRICA NO SITE DA FUNDAÇÃO HILÁRIO FERREIRA

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Circuito bregueiro conquista a cidade

Os irmãos Edilson e Edielson comandam a parelhagem Mega Príncipe
 
por Dilermando Gadelha
foto Tarso Sarraf
 
A palavra "brega" geralmente está ligada ao mau gosto, àquilo que é esteticamente feio ou de valor inferior. Em algumas regiões do Brasil, como o centro-sul, brega também é uma música romântica, "piegas", representada por grandes nomes da música popular brasileira, como Reginaldo Rossi e seu clássico "Garçom, aqui nessa mesa de bar..."
No Estado do Pará, o termo ganhou novos significados. O brega está associado a um ritmo caracterizado pela fusão entre o romântico e o dançante, com influências do bolero, merengue, twist, Iê-iê-iê e sons caribenhos muito escutados nas rádios da capital paraense na década de 50, como explica Antônio Maurício Costa, professor da Faculdade de História da UFPA e autor do livro Festa na Cidade: O Circuito Bregueiro de Belém do Pará.
"O brega é um herdeiro do bolero, muito apreciado nas festas da periferia de Belém, na segunda metade do século XX. As várias influências musicais vindas dos Estados Unidos, Caribe e América Latina acabaram colaborando para que se produzisse uma originalidade criativa na música de compositores da terra, dando origem ao brega paraense, sem ligação direta com o brega feito no Centro-Sul do País", Maurício Costa.
O estilo surgiu em meados dos anos 60 e passou a ocupar um espaço maior nos veículos de comunicação a partir da década seguinte, graças a duas gravadoras de som. A Rauland e a Grava Som foram as responsáveis por produzir os primeiros discos no estilo, rotulando-os de música brega e levando ao estrelato nomes como Ted Max e Mauro Cota. Nessa época, o ritmo era caracterizado pela batida dançante e pelo romantismo da letra.
A partir da década de 80, o ritmo passa por uma reformulação: as guitarras se tornam importantes para o Brega Pop, principalmente com o chacundum, uma batida especial criada por Chimbinha, guitarrista da banda Calypso. Os anos 2000 trazem a terceira fase do estilo, que, com mais autonomia do rótulo "brega", passa a ter três vertentes: o technobrega, caracterizado pela adição de batidas eletrônicas; o calypso, criado pela banda do Chimbinha e Joelma; e o bregamelody, mais próximo das raízes românticas.

Música retrata cotidiano da população urbana

O brega é um estilo que nasceu nas periferias de Belém, entretanto as festas são frequentadas não só pela população de menor poder aquisitivo, como também por pessoas das classes média e alta. Para o professor Maurício Costa, isso acontece devido a alguns fatores, como a distribuição espacial entre o que é periferia e o que é centro. "Em geral, as pessoas associam a diferença entre centro e periferia não como uma diferença espacial, mas, basicamente, como regiões com mais presença de estrutura urbana ou menor. Muitas vezes, no mesmo bairro, existem as duas coisas. Esse arranjo também torna complexa a espacialização das festas do circuito bregueiro, porque elas estão muito acessíveis e frequentá-las não significa assumir o estereótipo de bregueiro."
A diversidade de músicas e ritmos tocados nas festas de brega também ajuda na democratização do estilo. Segundo o professor, as festas de aparelhagem, ou mesmo as de cantores, apresentam repertórios para todos os gostos, até versões de músicas internacionalmente famosas. "O brega comporta todas as diferenças. Ir às festas de brega significa não só fazer parte dessa cultura, mas também participar de uma possibilidade de lazer na cidade, a qual pode ser feita por quem mora no centro ou na periferia", acrescenta Maurício Costa.
Segundo  pesquisador, as festas de brega foram decisivas para a popularização do estilo, "hoje, as festas são as opções de lazer mais visíveis em Belém". Seja em bairros da periferia ou do centro da cidade, as casas de show abrem quase todos os dias da semana, abrigando as aparelhagens, estrelas da música, e a população que vai assistir aos shows.
O conjunto de práticas culturais e também empresariais que acontecem nos espaços das diversas casas de show, distribuídas por toda Belém, constituem o que o professor chama de "Circuito Bregueiro". Ele envolve não apenas os apreciadores do brega e as aparelhagens ou artistas, mas também os donos de casas de show e as pessoas que vão trabalhar, formal ou informalmente, nos eventos.
Esse circuito é um "modelo festivo" recorrente e, juntamente com a música, retrata o cotidiano da população urbana de Belém, cria termos para depois serem inseridos no vocabulário comum, além de modos de dançar e de vestir que reforçam  a identidade regional. "O circuito bregueiro, na verdade, é um conjunto, cuja marca principal é a presença do brega paraense", explica o professor.

Festas fortalecem laços

Além de um momento de lazer, as festas de brega são um ambiente de sociabilidade, nas quais os frequentadores criam vínculos sociais e padrões de comportamento entre si. Em sua tese, o professor Maurício Costa identifica três categorias de pessoas que vão a shows de brega: o frequentador esporádico, o que vai com pouca frequência e não tem ligação com aparelhagens; o assíduo, aquele que tem conexões com uma casa, aparelhagem ou artista em especial e o especialista, ligado a clubes de fãs, galeras ou equipes.
"Em geral, os frequentadores de shows de brega são jovens que acompanham as aparelhagens não só em Belém, mas também no interior, portanto o seu universo de lazer está muito ancorado nos laços sociais que eles constroem com pessoas que frequentam o mesmo ambiente. Esse é um tipo de sociabilidade mediada pela festa. As pessoas vão não só para ouvir música e dançar, mas também para ver a multidão, que é um espetáculo à parte", diz Maurício Costa.
O livro do professor Maurício Costa é resultado de uma tese de doutorado defendida em 2004, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). A primeira edição foi lançada em 2007, de forma independente; e a segunda, revista e ampliada pela Editora da Universidade do Estado do Pará (Eduepa), com recursos da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa).


Saiba mais sobre as aparelhagens

As aparelhagens têm um papel importante nas festas de brega, pois além de serem responsáveis pelo som, são, também, "o elo fundamental entre lazer e empreendimento nas festas", afirma o professor Maurício Costa. As primeiras aparelhagens surgiram na década de 40 e eram chamadas de sonoros, pois tocavam as músicas em shows de clubes da periferia de Belém.
No início, os sonoros tocavam todos os estilos de música. A identificação com o brega só surgiu na década de 80, em festas de galpão, nas quais o ritmo ficou popular. As festas eram chamadas de bregões.
Para o professor Maurício Costa, a aparelhagem vai além do centro de controle - conhecido como nave - e das caixas de alto-falantes de três metros. Aparelhagens, geralmente, são empresas familiares que envolvem vários tipos de serviços, como a supervisão e o fechamento de contratos, o qual é feito pelo chefe da família, dono do equipamento. Existem, também, os DJs, muitas vezes filhos ou genros do dono.Quando a aparelhagem é de grande porte, são envolvidos motoristas e carregadores para locomover do equipamento.

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Fonte: Jornal da Universidade Federal do Pará . Ano XXIV Nº 90, Janeiro de 2011. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pitiú também é ser humano!


Entre boas acusações de não entender as imperfeições dos outros e de querer sempre enfeitar o boato do dia. Fui perseguida! É nessas horas que se diz com orgulho “O inferno São os outros” (Sartre)… Desconfio que pago por meus olhos que vivem uma patifaria literária.

Como é que pode perder de vista, um parágrafo bem pontuado e não se esquecer de ficar atento no universo do Ônibus?!

Para vencer o foco do pitiú, durante minhas coleções de caminhadas recomendo-me: eles procuram algo que não perderam.

O pit (mais intimamente) já se tornou uma atividade garantida, prazerosa e sem cerimônia. Obviamente que para obter uma boa cena, como a princesinha da América quebrando carros de paparazzo. É preciso perder a noção de eternidade e nunca hesitar, na hora de “roubar” um depoimento.

Simplificar a minha região conhecida por sua cultura e tradição de cheiro forte, seria conflitar com o meu bom mercado. Aí procuro negociar com o meu próprio espaço.

Giro a chave, ainda que signifique correr mais riscos, já existe que crie a minha história vigorosa e ate moderna. Passando por dez em dez gargalhadas, vejo o retrato de seus entes, que acusa uma saída para essa solidão absurda do Pitiú humano e logo condiciono que só os mortos fiquem de plantão nas ruas.

Caroline Chaves sobre o “EU”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vencedores III Prêmio Literário Canon de Poesia

III Prêmio Literário Canon de Poesia

Gostaria de terminar este ano de postagens com o post abaixo. 
Foi-me muito gratificante esta conquista na área da poesia. 
Dada a ampla concorrência do "Prêmio Literário Canon de Poesia”,  
meu poema “Nevoeiro”, escolhido entre mais de 3 mil poesias, 
encheu-me de satisfação e de motivação para com o gênero  poesia.  
Boas Festas a todos vocês que por aqui passam!
(Walter Rodrigues)


 13/12/2010
Canon divulga lista dos ganhadores da terceira edição do “Prêmio Literário Canon de Poesia”

Empresa elegeu os 50 melhores textos que serão publicados no livro de poesias feito em parceria com a Fábrica de Livros
A Canon, empresa japonesa especializada no desenvolvimento de tecnologias de gerenciamento de documentos e de imagem, anuncia os vencedores do “III Prêmio Literário Canon de Poesia”, realizado em parceria com a Fábrica de Livros e a Editora Scortecci. Foram escolhidos os 50 melhores textos, que serão reunidos em um livro a ser lançado nos primeiros meses de 2011.  

Com tema livre, o concurso, que teve sua abertura na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e aconteceu entre 13 de agosto e 30 de setembro, recebeu mais de 3 mil inscrições. Os finalistas foram escolhidos por uma comissão julgadora, composta por profissionais de renomado prestígio literário e cada vencedor receberá dez exemplares da obra e contará ainda com a divulgação e promoção da antologia pela Canon nas suas ações de Marketing e Propaganda, no período de um ano.

“O objetivo desse concurso é revelar talentos, promover a literatura e difundir a impressão digital de livros no país e a cada ano estamos conseguindo movimentar muitas pessoas e desenvolver neles o interesse cultural”, afirma Jun Otsuka, presidente da empresa no Brasil.

Confira os nomes dos poetas vencedores do III Prêmio Canon de Poesia:

Alam Cristian Arezi – Porto União/SC
Allan Pitz Ribeiro de Souza - Rio de Janeiro/RJ
Almir Guilhermino da Silva - Marechal Deodoro/AL
Altair dos Santos Paim - Salvador/BA
Ana Karina Pereira dos Santos Soares - Recife/PE
Ana Laura Dimas de Freitas Rabelo - Belo Horizonte/MG
Arthur Rodrigues Clemente - São Paulo/SP
Augusto Barros Mendes - Niterói/RJ
Augusto de Oliveira Junior - Macapá/AP
Benedito Cirilo dos Santos Filho - S. G. do Sapucaí/MG
Bruna Souza de Oliveira - Novo Hamburgo/RS
Carlos Eduardo Marcos Bonfá - Socorro/SP
Carlos Oliveira Rodrigues - Sobral/CE
Carlos Roberto da Rosa Rangel - Santa Maria/RS
Eduardo Francisco Jaques Neto - Torres/ RS
Eduardo Humberto Ferreira - Uberlândia/MG
Elaine Vincenzi Silveira - São Paulo/SP
Eleni Carvalho - Diadema/SP
Francisco Carlos Pereira - Araçatuba/SP
Gabriele Nunes Moraes - Uberaba/MG
Haydée Schlichting Hostin Lima - Santa Maria/RS
João Carlos de Oliveira - Teixeira de Freitas/BA
Jonatan Gracioli do Amarante - Cianorte/PR
José Guaicurus Mendes dos Santos - Guapimirim/RJ
Leila Maria Rodrigues Daibs Cabral - Mogi das Cruzes/SP
Luciana Slongo - Herval d’Oeste/SC
Luiz Carlos da Silva - Campo Mourão/PR
Luzia Stocco - Piracicaba/SP
Manoel Vinícius da Mata Souza - Ourinhos/SP
Márcia Cristina Lio Magalhães - Fortaleza/CE
Maria Anabel Siqueira Sampaio - São Paulo/SP
Mario Donizete Massari - Sertãozinho/SP
Mariza Baur - São Paulo/SP
Marlene Edir Severino - Itajaí/SC
Marlene Rozina Feltrin - Farroupilha/RS
Matheus Jacob Barreto - Cuiabá/MT
Nielson Torres Costa - Taguatinga/DF
Paulo da Mata-Machado Jr. - Brasília/ DF
Priscila Costa Lopes - Florianópolis/SC
Raimundo de Moraes - Recife/PE
Rosane Catarina de Castro - Belo Horizonte/MG
Roselaine Dias da Cruz - São Paulo/SP
Sergio Luiz Moreira - Rio de Janeiro/RJ
Tatiana Oliveira Druck - Porto Alegre/RS
Terezinha Bertazzi Costa - Campinas/SP
Varidiana Ribeiro Mercatelli - São Paulo/SP
Vilmar Ferreira Rangel - C. dos Goytacazes/RJ
Walter Luiz Jardim Rodrigues - Belém/PA
William Lima Glins - Rio de Janeiro/RJ
Zanny Adairalba Dantas de Góes - Boa Vista/RR

Sobre a Canon
Com marca registrada em mais de 140 países e faturamento na ordem dos US$ 34 bilhões, a CANON se destaca pelo desenvolvimento de tecnologias de gerenciamento de documentos e de imagem, e pela fabricação de uma ampla variedade de produtos que vão desde câmeras, copiadoras e impressoras, até equipamentos ópticos para a indústria de semicondutores e lentes profissionais para broadcasting. A empresa é a segunda maior dos Estados Unidos em número de patentes e sustenta um investimento diário de 6 milhões em pesquisa e desenvolvimento. No Brasil desde 1974, a Canon conta com infra-estrutura própria com mais de 200 colaboradores e uma rede de revendas responsável pela distribuição de toda a linha de soluções corporativas. A empresa oferece ao mercado brasileiro um portfólio com mais de 50 produtos entre multifuncionais, copiadoras, fax e scanners. Hoje, mais de 67% do faturamento mundial da companhia provém dessas soluções.

Sobre a Fábrica de Livros
Nascida em janeiro de 2008, a Fábrica de Livros oferece ao mercado editorial soluções para captura, manuseio, impressão, acabamento, logística e comercialização de serviços gráficos. É uma empresa direcionada exclusivamente ao mundo do livro, voltada ao mercado editorial brasileiro e aos autores que queiram publicar seus livros de forma independente. Sob a premissa de ter foco no “foco do cliente”, a Fábrica de Livros tem sua atuação posicionada em produções de livros em pequenas tiragens e sob demanda. Para editoras, a Fábrica de Livros prepara, produz e comercializa em baixas tiragens ou um único livro se necessário, viabilizando a produção e a comercialização de livros do fundo de catálogo, on demand, sob o conceito da “cauda longa”. O objetivo da Fábrica de Livros é ser líder no segmento em que atua, com crescimento sustentável por meio do compartilhamento de esforços e resultados com parceiros de negócios, do constante desenvolvimento tecnológico e do capital humano.

Mais informações em: http://www.fabricadelivros.com.br.

(FONTE: http://www.canon.com.br/ )

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O PÁSSARO TRANSPARENTE de Osman Lins (Ensaio)



Pode até parecer coincidência, mas entrar em contato com a obra de Osman Lins quase um ano depois de ler pela primeira vez o nome do grande autor pernambucano em uma crítica feita pelo jornalista Oswaldo Coimbra “O desafio de falar da aldeia e ser universal” a respeito do meu primeiro romance “Correndo atrás” Ed. Multifoco, Rio de Janeiro, 2009 no site GarulhosWeb, é sem dúvida, além de emocionante, uma ótima oportunidade de ler, pela primeira vez, algo de Osman Lins, e assim, nessa ocasião oportuna, me atrever a ensaiar algumas considerações decorrente da leitura do conto “O pássaro transparente”.   
Escrita executada com perfeição, o texto “O pássaro transparente” de Osman Lins, nos prende por sua singular harmonia e construção. Um texto para ser degustado lentamente como se não quiséssemos que ele chegasse ao fim. Frases curtas, pontuações exatas, alternância entre o externo e o interno, passado e presente e as mudanças de focos narrativos nos permitem ler o conto tanto pela visão indireta do narrador como pela visão direta da personagem. Como se fosse um jogo de imagens sobrepostas num mapa sem deformação mostrando sempre a mesma face. A face do menino e do homem que obstaculizando sua altivez desenfreada, uma resignação intransponível. Daí o fascínio por esse menino, que observa o gato sobre muro, com uma “colérica e abafada” vontade de ultrapassá-lo, mas sem a firmeza para o tal; por esse homem que observa a vida numa mescla de resignação e altivez sem firmeza. Vencedor segundo os moldes de sua sociedade, fracassado pessoalmente. Um homem que aceita a vida que lhe é imposta pelo pai autoritário, não sem tentar fazer frente ao mesmo em seus ímpetos juvenis, mas que de algum modo acaba por tornar-se à imagem e semelhança de seu progenitor. Embora detestando tudo isso, o homem, depois se percebe envolvido e conformado, até mesmo gostando da vida que ele detestava.
Ontem, sua amiga de adolescência e ele junto ao cais, dois paradoxos sob as luzes febris dos postes filtradas pelos ramos do fícus, aguardando o tempo em que ambos vão atravessar a barreira de seus sonhos… 
Hoje é o navio que aguarda enquanto a nitidez dos rumos dado às suas vidas se torna mais e mais evidente. Ela havia conseguido apossar-se de sua juventude, a amestrou e agora conquistaria o mundo de seus sonhos; todavia, ele, o homem, não sabia em que armário do tempo, em que espessa noite  de interrogações ele perdeu a dele.
Não há razão para lutar mais, pois ele já não é ele, e sim o pai, que agora trás dentro dele. Um pássaro transparente, sem cores, sem vida própria trazendo dentro de si um coração que não é o dele, que o apagou deixando apenas os traços do que ele foi e os olhos assustadoramente humanos. Um ser humano forjado, criado para ser alguém, um ser fictício, inexistente na realidade.
- Isso mesmo. Era assustador. 
- Existe, aquele pássaro?
- Não.


(Walter Luiz  Jardim Rodrigues)


MAS QUEM FOI OSMAN LINS?


Osman Lins

Osman Lins nasceu em Vitória do Santo Antão, filho de um alfaiate e de uma dona de casa, que morreu logo depois de seu nascimento. A ausência da mãe foi compensada por um círculo familiar de grande afetividade, liderado por sua avó paterna. Aos 16 anos de idade mudou-se para o Recife, onde ingressou no curso de finanças. Nesta época começou a trabalhar no Banco do Brasil. Posteriormente estudou dramaturgia na Universidade do Recife.

Em fins dos anos 1940, Osman Lins casou-se com Maria do Carmo, com quem teria três filhas. Em 1950 ganhou um concurso literário com o conto "O Eco", mas sua estréia na ficção se deu com a publicação de seu primeiro romance, "O Visitante", em 1955. Dois anos depois publicou "Os Gestos" e em seguida "O Fiel e a Pedra".

Sua primeira peça teatral a ser encenada foi "Lisbela e o prisioneiro", adaptada com sucesso para o cinema em 2003.

No início dos anos 1960, Osman Lins viveu na Europa, como bolsista da Aliança Francesa. De volta ao Brasil, transferiu-se para São Paulo. Em 1964, já separado de sua primeira mulher, casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. Publicou, em 1966, "Nove, Novena" (contos), "Um Mundo Estagnado" (ensaios) e mais uma peça de teatro, "Guerra do Cansa-Cavalo".

Em 1970 tornou-se professor universitário, ensinando literatura brasileira. Obteve também o grau de doutor em Letras, com uma tese sobre o escritor Lima Barreto. Em 1973 Lins publicou o enigmático romance "Avalovara", considerado uma de suas principais obras e traduzido para diversas línguas. Poucos anos depois, pediu exoneração da Universidade, desencantado com a qualidade do ensino brasileiro.

É também autor de "Guerras sem Testemunhas", livro-tese, onde discorre sobre as atividades e os problemas enfrentados pelo escritor.

Seu último romance foi "A Rainha dos Cárceres da Grécia", publicado em 1976. Osman Lins colaborou com diversos órgãos de imprensa e escreveu roteiros para televisão. Autor de uma vasta obra reconhecida pela crítica, recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio Monteiro Lobato e o prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. 

(FONTE: http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u593.jhtm)

Conhecendo-nos a partir do outro



O presente texto foi retirado dos rascunhos de minhas considerações finais do artigo “Conhecendo-me a partir do outro”, referente à avaliação final da disciplina Antropologia cultural do curso de Geografia e Cartografia da Universidade Federal do Pará, baseado nas bibliografias propostas pela professora e a partir do documentário “Diário de bordo” do DVD “Leoni &Ashaninkas – Outro Futuro Ao Vivo em Paris”.

Pareceu-me interessante narrar nestas considerações finais um episódio ocorrido há alguns dias atrás em que em companhia de minha mãe, irmã e meu sobrinho de um pouco mais de um ano fomos a um shopping da cidade. Muitas crianças na faixa etária de meu sobrinho e outras um pouco mais velhas aguardavam numa fila para sentar-se junto a um homem vestido de papai-noel para tirar uma simples foto que após vinte segundos estaria pronta e entregue no valor de dez reais para o interessado.
O movimento no ambiente era intenso, muito embora estivéssemos a três semanas do Natal.  Uma “árvore” imensa estava posta no meio do hall de entrada e ao redor da mesma fora montada um cenário com duendes, outras “árvores” menores, um trenzinho em verde e vermelho, com algumas crianças dentro, movimentando-se circularmente ao redor da dita “árvore” agigantada. Enquanto isso, muitos tiravam fotos de suas câmeras digitais e celulares, encantados tais como às crianças, com as pequenas lâmpadas coloridas, que piscavam em um jogo de luz programado e ritmado.
O papai-noel estava dentro de um cercado branco, sentado em uma imensa poltrona vermelha, auxiliado por belas assistentes, enquanto pais e filhos se acotovelando numa fila por uma foto de sua criança junto a um símbolo. O fotografo se posicionava da melhor forma possível para enquadrar a criança, que geralmente estava aos berros ou muito assustadas com tudo aquilo, numa fotografia que valesse os dez reais pagos e que de alguma forma perpetuasse aquela determinada cultura.
Aquilo tudo não era natural como as pessoas supunham. Não mesmo! Éramos de fato um amontoado de conceitos de culturas absorvidas no decorrer de nossa existência em determinada sociedade. Ah, como Laplantine estava correto!
Ninguém nasce consciente do significado do Natal, compras nas lojas enfeitadas de coisas aparentemente ilógicas, mas que só adquire lógica a partir do momento em que damos significados as mesmas. Esses significados são resultados de uma bagagem cultural que reproduzimos sem sequer nos questionarmos o porquê da coisa em si, incondicionalmente. As crianças pareciam saber disso, mas os pais não. Na essência não existe diferença entre os homens. O que existe são diferentes formas de cultura. 


“Ou seja, aquilo que os seres humanos têm em comum é sua capacidade para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes, línguas, modos de conhecimento, instituições, jogos profundamente diversos; pois se há algo natural nessa espécie particular que é a espécie humana, é sua aptidão à variação cultural”. (LAPLANTINE, 2003, p.13).

Leoni demonstra ter entendido a si mesmo a partir do momento em que começa a entender a cultura, as diferentes concepções de mundo dos índios Ashaninkas em relação às suas. “De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa”. (LAPLANTINE, 2003).
O documentário nos leva a um questionamento quanto à maneira de como nossa sociedade (dita civilizada) estar tratando o homem relacionado à natureza. Dentre os pontos de vistas distintos das duas culturas apresentadas no documentário, qual melhor conseguiu estabelecer uma humana relação entre o homem X homem e o homem X natureza?

Ora, Lévi-Strauss considera que o estágio da partida jogada pelas sociedades ocidentais é hoje desastroso, enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades que se insiste em qualificai de "primitivas" são infinitamente mais humanas (LAPLANTINE, 2003, p. 111-112).

Diante do catastrófico quadro atual do planeta decorrente dessas relações entre o homem-civilizado e a natureza, somos levados a nos perguntar: quem de fato era o “bárbaro”, “primitivo”, “atrasado”? Mais do que nunca, precisamos corrigir a cegueira de nossa “sociedade-civilizada” ocidental para enxergar e tentar reverter o esse quadro.


Referência

LAPLANTINE, François. “Aprender antropologia”. São Paulo: Brasiliense, 2003.
DVD “Leoni&Ashaninkas – Outro Futuro Ao Vivo em Paris”. Warner Music, 2006.