quinta-feira, 31 de março de 2011

Viagem à Reserva Indígena Alto Rio Guamá em ocasião da Festa da Moça Tembé



Acertou-se para o dia 27 de setembro de 2010 a viagem para a Reserva Indígena Alto Rio Guamá, noroeste paraense no limite do Estado do Pará com o de Maranhão, em territórios dos municípios paraenses Garrafão do Norte, Santa Luzia do Pará, Nova Esperança do Piriá e Paragominas. A turma noturna do Curso de Geografia, a princípio, estava toda convidada pelo graduando indígena Aldo, que muito embora tenha tentado conseguir o ônibus, esbarrou em problemas de ordem financeira para o transporte. Ficando desse modo a viagem da nossa turma adiada para uma outra oportunidade.
Clique sobre o mapa para ampliar a imagem
A notícia foi recebida com muita frustração por parte da maioria dos alunos, que já haviam até arrumado as malas, contudo, Aldo, Rebeca, Daniel e eu estávamos com vagas garantidas na van da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, como convidados de Aldo para viajar um dia antes, 26 de setembro de 2010, juntamente com Klaus Schmidt (etnógrafo alemão) e sua esposa Carla Schmidt (Geógrafa carioca), ambos equipados com modernas câmeras de vídeo e câmeras digitais para catalogar imagens e depoimentos da tradicional Festa da Moça para um projeto de pesquisa.

Em todo caso, os Tembé mantêm algumas práticas religiosas tradicionais, sendo a mais importante delas, na atualidade, a chamada Festa da Moça, que tradicionalmente faz parte dos ritos de puberdade de meninos e meninas (wiraohawo) e que antes era realizada como parte da festa do milho. A partir do início do primeiro ciclo menstrual, as meninas são isoladas do grupo e passam a observar certas prescrições alimentares (Márcio Couto Henrique).


Saímos de Belém no dia 26 de setembro de 2010, às 17:00 horas (horário de Brasília) pela BR-316, depois seguimos pela BR-010 até o município de São Miguel do Guamá e entramos por fim na PA-233, que nos levou até o município de Capitão Poço, onde ficamos pernoitando num posto da CASAI, sigla que não me recordo exatamente, mas é algo como Casa de Saúde Indígena ou Casa de Assistência à Saúde Indígena. Lá havia muitos remédios, uma dessas cadeiras que os dentistas usam para tratar seus pacientes estava inoperante e alguns cartazes do Ministério da Saúde fixados na parede. Daniel dormiria na cadeira odontológica, pois não havia trazido rede. O casal  Schmidt acomodou suas redes na varada, assim como Rebeca e eu. Carla estava muito contrariada por estar perdendo a festa na aldeia, mas não havia jeito de chegarmos lá naquela mesma noite. Sendo que, por volta das 22:00 horas, todos saímos para a praça de Capitão Poço para tomar umas cervejas e jogar bilhar. Ficamos até às 2:00 horas, depois voltamos para CASAI discutindo a respeito da mobilização acadêmica dos estudantes da UFPA, já em nosso alojamento, a conversa se centrou entre Daniel, o casal Schmidt e eu. Falávamos principalmente de filosofia e literatura. Discutíamos a obra de Nietzsche e queríamos saber a opinião do único alemão entre nós a respeito da obra, no original, de “Assim falava Zaratustra”, mas Klaus confessou que ainda não tinha lido a obra, apenas trabalhos sobre. Depois de muito bate boca intelectual, fomos todos dormir.  

 Na manhã seguinte, 27 de setembro de 2010, aguardávamos o transporte que viria da RIARG para nos levar até a aldeia, já que a van da FUNAI estava com um problema na suspensão para encarar o ramal que ligava Capitão Poço a reserva indígena. Sendo que por volta das 9:00 horas uma caminhonete da Secretária de Estado de Meio Ambiente - SEMA, apareceu dirigida pelo cunhado de Aldo. Então seguimos por cerca de 17 km até a margem do Rio Guamá. Atravessamos imensos pastos verdejantes onde se via criação de bovinos e grandes plantações de maracujá, limão entre outras culturas. A caminhonete seguia em alta velocidade pelo ramal recentemente raspado pela prefeitura. A morfologia do terreno variava bastante no que diz respeito a altitude, sendo que ora descíamos e ora subíamos como que querendo alcançar as nuvens mais altas. A poeira ficava em nuvens atrás de nós, e o céu estava de um azul espetacular sobre o verde vivo da vegetação circundante.
Mais adiante estava a aldeia Frasqueira, o alto rio Guamá já nos acompanhava a esquerda do veículo.
Por fim, chegamos.
No alto dos barrancos junto ao rio, se via algumas casinhas de madeira, outras de barro. Era a aldeia Frasqueira. No meio do rio de águas turvas, vinha se aproximando uma lancha de alumínio a fim de nos atravessar até a outra margem do rio. Uma grossa e comprida corda se estendia de uma margem a outra amarrada nas árvores mais grossas em suas extremidades. Por ela, um índio guiava a embarcação de uma margem à outra sem precisar de remos ou motor. Bastava apenas puxar a corda e a leve embarcação deslizava facilmente sobre as águas calmas.


A aldeia Frasqueira tinha uma unidade de saúde que estava fechada por falta de médicos, sendo preciso que os Tembé se deslocassem das aldeias até Capitão Poço para um atendimento. Nossos colegas pesquisadores ficaram por lá mesmo. Aldo queria que eu ficasse na aldeia Itaputyr, pois era lá que estava acontecendo a Festa da Moça. Aldo queria que eu colhesse todo o material possível para a redação de um livro sobre os Tembé do Alto Rio Guamá a partir de sua experiência de vida antes e durante a universidade. Era um projeto difícil de ser levado a cabo por um calouro, mas que ele confiava que eu pudesse fazer em consequência de minha experiência na área da literatura em prosa. Por isso, Rebeca, Daniel e eu não ficamos na aldeia Frasqueira e sim na aldeia Itaputyr, que ficava cerca de 1 km por uma trilha em meio à mata.
Contudo, não seguimos direto para Itaputyr, pois Carla pediu para Aldo, que retornaria até a cidade de Capitão Poço, comprar 15 kilos de peixes e outras coisas menores. Dissemos que queríamos acompanhá-lo. E assim seguimos o caminho de volta até o município. Fomos até um sítio onde se vendia peixes vivos tirados diretamente de um tanque artificial através de tarrafa lançada quando os peixes vinham comer a ração jogada pelo funcionário do local. Por volta das 13:30 horas fomos almoçar em um restaurante no centro de Capitão Poço. Alguns amigos de Aldo apareceram e começaram a conversar e a beber cervejas. Resultado: por ali ficamos até aproximadamente 15:00 horas. Depois uma outra caminhonete apareceu. Era um veículo da Fundação Nacional de Saúde – FUNASA, dirigido pelo primo de Aldo, o cacique Kohay da aldeia São Pedro. Logo em seguida fomos até um mercadinho, que ficava logo no início do ramal que dava acesso a reserva. Aldo comprou os cigarros de Carla e outras coisas mais, o cacique Kohay fez a sua compra e seguimos de volta à aldeia. O que mais me surpreendeu nas compras do cacique foi uma caixa de cachaça.

  
Regulava por volta das 17:00 horas e de longe se podia ouvir e ver a aldeia em clima de festa. Um barracão coberto de palha assentava-se no centro da aldeia, rodeado de casas de todos os tipos, incluindo alvenaria. Era o penúltimo dia de uma festa que havia sido iniciada há 12 dias.

a Festa da Moça tem duração de vários dias e reúne índios de todas as aldeias Tembé, além dos vizinhos Kaapor. Trata-se de um importante momento de reafirmação da identidade étnica, em que os índios se orgulham de afirmar que durante dias cantam em sua própria língua e dançam sem repetir uma música sequer (Márcio Couto Henrique).

Todos exibiam pinturas corporais e adereços de penas e plumas tais como braceletes e cocas. Havia muitas pessoas espalhadas pelo terreiro e o cheio de ervas queimadas e os tauaris (espécie de lasca de algum vegetal) fumados pelos indígenas mais velhos deixavam-nos como em um estado de torpor. Era muito estranho aquilo tudo para nós. Ali verdadeiramente houve o choque entre nossa cultura e a cultura deles.
Então Aldo nos levou até o barracão coberto de palha. Lá estavam reunidas as principais lideranças Tembé. Todos muito bem pintados de jenipapo, enfeitados de plumas e penas coloridas. Suas expressões eram graves e solenes. Fomos chamados para o centro do barracão e nos colocamos, ombro colado no outro, diante daqueles homens. Aldo nos apresentou como alunos da UFPA e seus convidados especiais para assistir a Festa da Moça. Depois ele passou a palavra para quem quisesse dizer alguma coisa. Basicamente, todos parabenizamos e agradecemos a oportunidade de estar prestigiando o evento junto deles. Carla nos encontrou e perguntou o motivo de temos demorado tanto para e logo em seguida perguntar se Aldo havia comprado os seus cigarros. O peixe ela aguardava comer assado noutro dia à beira do Rio Guamá.

Ao cair da noite os maracás começaram a soar juntamente com os cantos dos pássaros da floresta. Dentro do barracão o ritmo seguia cadenciado e marcado com precisão pelos vários maracás usados nas “canturias”, que falavam de coisas da floresta como os animais do dia e da noite. Os Tembé tinha um dos mais ricos repertórios musical do Brasil. As vozes acompanhavam os maracás numa combinação perfeita e emocionante. Enquanto o ritmo dos maracás seguiu firme e ritmado, as vozes poderosas dos homens se combinavam com os contraltos das mulheres num harmônico e inesquecível coro. No meio do barracão homens e mulheres aos pares dançavam de braços dados, girando e dando fortes pisadas ao chão em determinado tempo, formando uma roda. Uma dança tradicional do povo Tembé.
As “canturias” e danças seguiriam pela madrugada adentro. Agora havia mais gente dançando do lado de fora do barracão. A lua cheia estava coberta por uma densa nevoa e a única lâmpada que pretendia iluminar o terreiro parecia devorada pela nevoa esparsa. E eles giravam e davam pisadas ao chão conforme o ritmo dos maracás. Depois aconteceu um movimento naquela dança que eu ainda não tinha reparado: uma “barreira” formada por alguns indivíduos dançava ao centro da roda: ora avançando, ora recuando, ora girando e depois se recompondo em pares para logo depois se ajuntar à roda enquanto outro grupo formava outro “muro” de indivíduos, que executavam os mesmos passos.

Enquanto eu observava a dança, o jovem indígena Alan, que havia entrado naquele mesmo ano, assim como Aldo, na UFPA no curso de Direito, aproximou-se e ofereceu uma bebida feita do sumo da mandioca.
“Beba a bebida de nosso povo”, disse-me ele a passar para minhas mãos uma grande cuia cheia de um líquido amarelo. Eu tomei um bom gole.

 Eram 4:00 horas do dia 29 de setembro de 2010, domingo, quando começou um barulho de cornetas e gritarias para acordar os que dormiam. Acordamos meio atordoados e caminhamos para o barracão, onde já se iniciava os preparativos para o ritual da menina moça. Sobre a aldeia deitava-se um nevoeiro retirado de algum romance inglês, e o frio daquele horário da manhã só fazia o sono ficar ainda mais pesado e a rede irresistível. Tomamos café preto numa pequena barraca coberta de palha e depois voltamos para nossas redes.
Por volta das 8:30 horas eu já estava de pé novamente. Aldo havia sumido desde a noite anterior. Deixou-nos aos cuidados de Dona Fausta, sua tia, que nos hospedou e nos tratou muito bem em sua casa na aldeia Itaputyr. Resolvi perguntar o paradeiro de seu sobrinho no que ela me respondeu que Aldo estava na casa dele, na aldeia São Pedro, próxima dali. Logo em seguida ela me perguntou:  “Já vão vestir a moça, tu não vais ver?”. Tentei acordar Daniel para ele presenciar a cerimônia, mas meu camarada preferiu ficar dormindo. Rebeca já tinha ido. Então eu fui até lá.

No meio do terreiro ao lado do barracão, encontravam-se três meninas sentadas, uma do lado da outra, sobre o chão, pintadas completamente de jenipapo com longas saias brancas. Uma índia auxiliada por outra enfeitava as garotas com penas, colares e com o capacete (espécie de cocar com as penas para baixo), enquanto todos se reuniam ao redor do ápice da festividade da  menina moça com seus celulares e câmera digitais. Nossos colegas de viagem, casal Schmidt, não estavam por ali mais seus maquinários áudio-visual moderno, coisa que me intrigou bastante já que eles estavam ali para registrar aquele momento. Por outro lado, a equipe de reportagem do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT-Belém – com os quais estávamos dividindo a mesma casa - estava por lá já fazia três dias para montar uma reportagem de um pouco mais de 6 minutos, que seria exibida no Jornal SBT Pará do dia 30/09/2010. O que me chamou a atenção era a maneira como o repórter da emissora interrompia o cerimonial pedindo para o pajé repetir alguns gestos e palavras, como um diretor de peça teatral. Rebeca aproximou-se de mim com um celular que batia boas fotos, mas  filmava numa qualidade péssima. Ela me disse: “Walter, tu que vais ficar por ai? Então tira umas fotos pra mim”. Agora eu estava equipado e poderia fazer algumas imagens.

E assim, as meninas foram apresentadas à comunidade indígena pelo pajé como as mais novas mulheres da tribo, acompanhadas de outros três adolescentes que com elas faziam par.  O mutum, prato principal da festa, depois de assado é pilado junto com farinha até virá paçoca. Essa paçoca é distribuída pelas meninas-moça entre os participantes do evento dentro de uma cuia. Somente nesse dia as meninas podem comer das caças novamente, já que após o primeiro ciclo menstrual elas são retiradas da convivência em sociedade e passam a seguir um regime alimentar, onde caças grandes e pássaros são proibidos. Eu recebi a paçoca em forma de bolinha na palma da mão e comi e adorei o gosto, embora eu não fizesse à mínima ideia do que eu estava comendo.
Essa paçoca é distribuída pelas meninas-moça entre os participantes do evento dentro de uma cuia.
Depois trouxeram um macaco guariba esfolado e assado. Dava para ver os dentes branquíssimos do animal que mais parecia um boneco. Mas quando olhei mais de perto para tirar a foto, vi que o animal era bem real. Duas mulheres enfeitavam o guariba com cocar, uma pequena saia, plumas e um colar. Aldo Tembé me contou mais tarde que o guariba tinha uma função bastante peculiar. Segundo Aldo, a menina que olhasse para o guariba depois do mesmo arrumado e sorrisse era porque não era mais virgem. Depois houve mais danças e cantorias.


Segundo Aldo, a menina que olhasse para o guariba depois do mesmo arrumado e sorrisse era porque não era mais virgem.

Depois houve mais danças e cantorias.

Por volta das 13:00 horas, voltamos de um banho de rio para almoçarmos. Na pequena barraca coberta de palha, que servia como uma espécie de refeitório estava sendo servida, em médias cuias, carnes de porco do mato, nhambu e mutum. Um jovem índio nos pintou formas geométricas nos braços com jenipapo. Carla estava inconformada de ter perdido o rito principal da Festa da Moça, e me informou que na casa onde estava hospedada na aldeia Frasqueira mais seu marido, alguém havia mexido em sua bolsa e roubado dois litros de cachaça de Minas, presente de casamento que ela queria tomar numa ocasião especial como aquela. Também nos disse que informaram o horário errado para eles, sendo que o ritual de apresentação da menina-moça começou às 8:30 horas e eles vieram às 10:00 horas. Ela estava indignada com Aldo por ele ter os alocado naquela aldeia distante da festa. Ela estava revoltada com Aldo por ter dado dinheiro a ele para comprar 15 kilos de peixes, pois, segundo suas palavras, ela queria comer ao menos um peixinho assado na beira do rio, e até naquele momento ela não tinha visto sequer um peixe. Carla e Klaus, que diferente de sua esposa quase nada falava, estavam chateados e queriam ir embora, mas Aldo havia sumido de novo. Estava novamente para a aldeia São Pedro. E o horário que a van da FUNAI ficou de nos buscar na CASAI de Capitão Poço estava quase em cima. Precisávamos nos retirar dali algumas horas antes. Todos nós estávamos preocupados com nosso regresso, pois tínhamos compromissos na segunda feira de manhã. Então Carla e eu saímos para perguntar a um grupo de índios de meia idade se havia algum transporte disponível para nos levar até Capitão Poço, no que o único indígena com carro particular da aldeia respondeu-nos secamente: “O Bira (Aldo) trouxe vocês, o Bira leva vocês”.
O tempo ia passando e a tensão aumentando. Começávamos a cogitar a hipótese de irmos andando até Capitão Poço e de lá pegar um ônibus até Belém. Rebeca havia vindo sem dinheiro suficiente para uma passagem de ônibus. Ela estava seriamente preocupada. Falamos que daríamos um jeito. E quando já estávamos com as bolsas arrumadas e o coração saindo pela boca, mandara-nos informar que o senhor da frase: “O Bira trouxe vocês, o Bira leva vocês”, estava de saída para Capitão Poço naquele momento para levar alguns indígenas, e se nos quiséssemos ele podia nos levar até lá. O sorriso de alívio se estampou em nossos rostos.
Pajé Tembé
Todos nós estávamos realmente chateados com Aldo, que até naquele momento não dava às caras. Seguimos então pela trilha de 1 km até a aldeia Frasqueira para atravessar o Rio Guamá e por fim partir para nossas casas. Eu estava numa mescla de pavor e excitação. E para as crianças tembé a presença de Klaus Schmidt era um espetáculo devido suas características físicas peculiares: quase dois metros de altura, extremamente branco e olhos de um azul quase transparente. Ele passava as suas grandes mãos nas cabeças das crianças que se aproximavam curiosas enquanto seguíamos para atravessar aquele trecho do rio.

Foi então que surgiu Aldo andando e conversando muito tranquilamente em companhia de outro indígena. Ao nos ver a uma certa distância, Aldo parou e aguardou. Daniel e Rebeca seguiram adiante se recusando a falar com ele, os pesquisadores tomaram um rumo contrário indo bater até a porta de uma das casas para se despedir de alguém. Aldo observava essas ações com os olhos de interrogação, parado no meio do campo de futebol. Então eu resolvi ir até ele, no que meus amigos Daniel e Rebeca me censuram. “Vai lá então só tu. Eu não quero nem papo com esse cara. Eu não tô a fim de dar um soco na cara desse teu amigo otário. A gente vai te esperar pra ali”. Falou-me Daniel, que depois caminhou mais Rebeca para um barracão à margem do barranco. Aguardando-me ali.
Aldo me disse que estava dando atenção à sua família na aldeia São Pedro, e por isso não podia ficar o tempo todo conosco, e que ainda havia o agravante de sua mulher achar que nossa amiga Rebeca fosse sua amante. Segundo ele, as características físicas de nossa colega de curso eram semelhantes com as de uma mulher que ele dançou em uma festa em Capitão Poço alguns meses atrás. Também me contou que ele havia ficado muito chateado comigo pelo fato de eu ter me concentrado mais em outras coisas do que em pesquisar para o livro que eu havia combinado começar a escrever no próximo ano. Falou-me que já estava a caminho para nos buscar e que a van da FUNAI só sairia quando nós chegássemos. Já quanto aos pesquisadores, segundo ele, era problema dele.
A viagem de volta foi tranquila. Chegamos em Belém por volta das 20:00 horas.    
          
Parafraseando Malthus em sua obra “Ensaio sobre o princípio da população” o presente relatório poderia, indubitavelmente, ter sido tornado muito mais completo por uma coleta de maior número de fatos para elucidar o argumento geral, mas devido ao caráter mais recreativo do que científico dado por minha pessoa à viagem as citadas aldeias, impediram-me de dar ao assunto atenção indivisa.
De qualquer modo, o contato com a cultura indígena, seus rituais e até mesmo com o próprio Aldo, acendeu em meu espírito uma profunda percepção do outro, que me fizeram ver a mim mesmo.

O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única. (LAPLANTINE, 2003, p.13)

Os conhecimentos empíricos obtidos dessa viagem e do contato com Aldo, viriam se mesclar no semestre seguinte aos conhecimentos antropológicos numa disciplina chamada Antropologia Cultural, conhecimentos que me serviriam de base para redação desse relatório e reforçar minha maneira de ver o outro com menos etnocentrismo e preconceito. Do trajeto de 1 km da aldeia Frasqueira até a Itaputyr, notei alguns trechos com a vegetação devastada em processo de recuperação, e vim entender depois o histórico de lutas que esse povo trava com sacrifício e coragem há décadas para preservar seu território, sua cultura e identidade contra invasores carregados de preconceitos e interesses econômicos. Observei o quanto nossa cultura dita civilizada ainda tem que aprender com esse bravo povo, que a cada dia vem reafirmando suas tradições e o orgulho de ser Tenetehara. “De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa” (LAPLANTINE, 2003).
Seja como for, este relatório teve como objetivo fundamental evidenciar a experiência empírica do autor para futuros fins científicos que esta temática vier a suscitar.


    
CONSULTAS PARA ESTA POSTAGEM:

LAPLANTINE, François. “Aprender antropologia”. São Paulo: Brasiliense, 2003.
MALTHUS, Thomas Robert. “Malthus: economia”  São Paulo: Ática, 2005, p.51-52.
HENRIQUE, Márcio Couto. “Populações indígenas e a Terra do Alto Rio Guamá”. Atlas socioambiental: municípios de Tomé-Açú, Ipixuna do Pará, Paragominas e Ulianópolis / Maurílio de Abreu Monteiro, Maria Célia Nunes Coelho, Estêvão José Silva Barbosa; organizadores. Belém: NAEA, 2009.

-----------------------------------------------------------------

SÓ PRA SABER

O relato que você acabou de ler é totalmente real, assim como os personagens envolvidos, entretanto, os nomes das  pessoas envolvidas nessa aventura foram modificados a fim de preservar suas identidades.


MAIS SOBRE O ASSUNTO DENTRO DE VERSOS RASCUNHOS SEGUINDO OS LINKS ABAIXO:

  1. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/07/por-uma-mudanca-de-paradigmas-sobre.html
  2. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/11/os-indios-tembe-e-eu-na-tradicional.html
  3. http://versosrascunhos.blogspot.com/2010/12/conhecendo-nos-partir-do-outro.html


quinta-feira, 24 de março de 2011

O LIVRO EMPOEIRADO



O texto a seguir trata-se de um poema escrito a partir do original “O livro”, primeiros murros na área dos versos de meu irmão de 16 anos, Wagner, que recentemente criou um blog chamado “Versos Literários”, sigam o link e passem por lá para conhecer. Agora eu os deixo com “O livro empoeirado”.



O LIVRO EMPOEIRADO
(Wagner Rodrigues / Walter Rodrigues)



Numa estante empoeirada existe um livro empoeirado:
solitário e triste.
Ninguém o observa e o alcança.
Em suas páginas o verdadeiro saber salta sobre nós, e nos
domina como um vício encantador.
Que nos encaminha para essência verdadeira das coisas.
Essência esta que está bem ali entre as linhas.
A beleza de cada pensamento escrito com a alma desfila
diante de todos: rindo, chorando e filosofando.
Na estante empoeirada está o livro.
Olhando para todos sem que ninguém olhe para ele.
Esperando durante anos, décadas e milênios.
Empoeirado pelas areias de uma ampulheta que nunca acaba.
Em busca de uma alma que com a sua se comunique.
O livro empoeirado no alto da estante, também empoeirada e triste,
tão empoeirada quanto os olhos dos ignorantes que não sabem enxergar além de si mesmos, além do que lhes foi encravado na cabeça como exato e verdadeiro.
Entretanto, o livro empoeirado continua ali ao alcance de almas que com ele queriam voar para além do curral da ignorância.
Isso não é impossível para quem se dispõe a alcançar o livro empoeirado
de uma estante qualquer, em qualquer lugar do mundo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

POEMOVIE e a poesia concreta




Mês passado entrei em contato com um texto do parceiro Guaxe, editor da Kamikases – revista literária e aluno do Curso de Letras da UFPA, e o texto não era bem um texto, ou melhor, não era apenas um texto. Tratava-se de um POEMOVIE. Ou seja, o poema de Guaxe intitulado “Álvares de Concreto”, que faz parte de seu livro de poemas "subVerso" lançado em 2008, estava em forma de filme, onde as palavras do texto seguiam numa animação que ao avançar das possibilidades de leitura, findava-se com todos os versos composto de modo a forma a figura gráfica de uma lágrima, que na medida em que o filme passava ia como se escorrendo de cima pra baixo do vídeo.
Eu já havia entrado em contato com a poesia concreta alguns anos atrás sem que a mesma me despertasse sentimento e interesse algum devido sua maneira estática e absolutamente visual de ocupar as páginas de livros.  Mas, depois de conhecer essa modalidade de poesia, acabei por gostar do resultado.
Por isso, resolvi disponibilizar aqui em Versos Rascunhos o POEMOVIE de Guaxe juntamente com dois trechos de textos didáticos sobre o Concretismo a todos os que por aqui caem.      


Em termos ainda genéricos: o Concretismo toma a sério, e de modo radical, a definição de arte como techné, isto é, como atividade produtora. De onde, primeiro corolário: o poema é identificado como objeto de linguagem: “O poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre.”

(Eugen Gomringer. In Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. São Paulo, Cultrix, s/d.)


 Em 1956 nasce, em São Paulo, o Concretismo, expressão mais atuante da vanguarda estética brasileira. Seu principal veículo, que inclusive o precede, é a revista Noigrandes (1952 a 1958), na qual aparecem poemas de seus lideres – Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos. O último número da revista traz o “Plano Piloto da Poesia Concreta”, assinado pelos três poetas.
Os adeptos dessa tendência consideram encerrado o ciclo do verso como unidade rítmica formal da poesia, propondo um novo agente estruturador: o espaço gráfico.
Um estrutura espaço-temporal substitui, assim, o desenvolvimento temporal linear, permitindo que os poemas sejam lidos em todas as direções, de acordo com diferentes percursos, cada leitura apontando novas possibilidades interpretativas.
Trata-se, enfim, de uma poesia predominantemente visual, que instaura novas relações sintáticas e morfológicas entre as palavras, já que explora as livres-associações fônicas e semânticas.

(Português: novas palavras: literatura, gramática, redação / Emília Amaral ... [et al.]. – São Paulo: FTD, 2000.)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Revista Cancro, porque venéreas e cancros viveram felizes para sempre



  
Recebi através de um e-mail do parceiro Reinaldo Guaxe, editor da Kamikases – revista literária e aluno do Curso de Letras da UFPA, os últimos exemplares da Revista Cancrofanzine impresso e virtual. Uma produção independente, sem patrocínio e distribuída gratuitamente seja pela Internet e/ou impressa. Mas o que falta em apoio e incentivo sobra em artistas talentosos e contextualizados com a realidade real. A Revista Cancro conta com textos em prosa e versos. Tudo isso muito bem ilustrado em traços em preto e branco. Embora a ausência de cores possa sugerir um trabalho simplório e desinteressante, o projeto gráfico e a edição nada deixam a desejar. A criatividade e o talento sobressaem em todas as páginas, e  a possível falta de recursos para um material mais pomposo, vistoso, figuram como mero coadjuvantes frente ao trabalho apresentado. A Revista Cancro estar aberta para autores, ilustradores e patrocinadores de todos os cantos. Entrem em contato com a revista e veja vocês mesmo o que por aqui eu tentei explicar. Tenho certeza que a visita não será em vão e, sem dúvida, lá estará bem melhor explicado.

“independência ou morte, bradou o cavalo de espátula em punho. como não morremos e nem nos tornamos independentes (seja lá o que isso signifique), passamos a marchar vestidos de guerra, de carnaval e de circo. venéreas e cancros viveram felizes para sempre.
















cancro é uma publicação alternativa que se pretende mensal e gratuita (sempre que o capitalismo neoliberal assim o permitir).
cancro está aberta a colaborações de qualquer espécie, tais como: textos, ilustrações e coisas semelhantes. entre em contato: gilvieiracosta@hotmail.com
cancro não se responsabiliza. todas as opiniões expressas nesta publicação são de inteira responsabilidade do governo federal.
cancro não possui direitos reservados.
cancro é literatura para se ler cagando.






quinta-feira, 3 de março de 2011

Romance de Vidro – Mayara La-Rocque



Dando prosseguimento as minhas releitura dos textos da kamikASES – revista literária dos alunos do Curso de Letras da UFPA, 2010, ano I número I – choca-se contra Versos Rascunhos mais um kamikaze. Guiado por Mayara La-Rocque, aluna do Curso de Letras, Habilitação em Língua Francesa da UFPA, ‘”Romance de vidro” é um texto extremamente delicado, mas não se engane quanto a sua aparente e ilusória fragilidade. Pois, caros amigos e amigas da web, sua força, ataque e defesa estar justamente nisso. La-Rocque trabalha sua escrita numa mescla de sensibilidade e dureza, ou melhor, ela nos apresenta um texto nem seco e nem molhado e melado demais. Gostoso seu jogo de palavras, deixa o texto com um ritmo agradável e fácil de ler.

“Como não viu que ela era de vidro, ele pisou. E ela, sendo de vidro, quebrou. E ela, sendo de vidro cortou-se e cortou”.

Ou seja, tenham cuidado para não se cortarem e sangrarem até morrer de paixão nesse romance de afagos e dores.    

ROMANCE DE VIDRO
por Mayara La-Rocque*


LÓRI ACORDOU AINDA ERA CEDO, quando o sol ainda parecia sentir frio. Sentou à beira da cama, desprendeu-se dos lençóis ainda marcados de uma noite de desesperos molhados pelo tempo que não se viam, pelo tempo que não se amavam. Deixou seu corpo nu, estático e exposto àquele ar frio misturado com o gosto vulgar do passado. Consumiu o tempo olhando para claridade do quarto que lhe era comum vindo daquela mesma janela sem cortinas. Pensou que as cortinas já deveriam estar lá; que aquele chão não deveria se tão oco e gelado, e que a TV deveria estar desligada. Desligou a TV. Olhou para ele, em sono profundo. E vidrada em sua imagem, como se fosse dentro de um sonho, disse condensadamente e baixinho:

- Estou perdida dentro de uma fortaleza. Dentro do meu corpo que você não desbravou. Dentro dos meus pés e dedos apertados, que sempre estiveram dentro de um sapato que você não descalçou. Dentro de minha mão lisa e escorregadia que você não conseguiu segurar. Dentro dos meus pêlos e tez que você tocou, buliu, apertou, mas nunca sentiu. Dentro de cada ponta de cabelo meu que você muitas vezes acariciou, mas depois foi arrancado de um por um. Foi quando eu me revirei do avesso, e tudo amargamente fez sentido, pois você, ainda assim, não me viu.

Como se fosse num sopro, ele de súbito, despertou. E ainda quando recuperou na memória o sentido da volúpia em vê-la naquele momento, abriu um meio sorriso, sussurrou em meias palavras:

- Me diga, você é de verdade?

- Sim. Mas cuidado, que eu sou de vidro.

Ela já não mais olhava para ele, já não olhava mais para nada, a não ser para o nada. Ele voltou a dormir.
Como não viu que ela era de vidro, ele pisou. E ela, sendo de vidro, quebrou. E ela sendo de vidro cortou-se e cortou.

-----------------------------------------
*22’, graduanda, hab. Língua Francesa. Escrever para mim, é algo que sai de mim, e não que pertence a mim. É uma força que diz. É o movimento que se forma. É a folha que cai, a flor que desponta o fruto que nasce e que é comido – o sabor que é vivido em minhas mãos. Depois de longa vida e existência, é a árvore que de tão velha tomba, e no nascer de sua velhice, semeia o processo de decomposição, de sua fatídica e profunda interna desorganização, para então atravessar e trocar a toda graça do ar, de todo gás, de luz e energia, do fluído e de outros ruídos entre outros seres, de outros organismos e prazeres vindos do céu e da terra.


Mais textos da autora:



   kamikASES revista literária: é uma publicação do coletivo KamiKaze em parceria com Centro Acadêmico de Letras – CAL/UFPA. Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, opinião da revista, sendo permitida a reprodução parcial ou total de textos, fotos e ilustrações, por quaisquer meios, sem autorização, desde que citada a autoria.
contatos: coletivokamikaze@hotmail.com




CONSULTA:


LA-ROCQUE, Mayara de. “Romance de vidro”. Belém: Revista Kamikases, Universidade Federal do Pará, n.01, 2010, p.09.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O fazer literário de Bukowski


Charles Bukowski
(1920-2004)


Conheci Bukowski em 2007 através de um comentário feito a um conto meu no ano de 2005. Não entrei em contato de primeira com o texto. Perdi muito tempo procurando o nome Bukowski nas prateleiras da biblioteca relacionada aos russos; na internet, na época, sequer existiam citações bibliográficas do autor, então o esqueci por completo me concentrando nas minhas leituras de Machado de Assis e Clarisse Lispector, também bons demais, diga-se de passagem.
Numa das minhas idas rotineiras a biblioteca para devolver livros e pega mais, vi o título de um filme no cartaz de um cinema com uma foto que me chamou muita atenção: um homem sentado junto a uma mesa mais um imenso copo de cerveja, escrevendo de forma compenetrada num bloco de papel a sua frente enquanto uma stripper banhada de luz vermelha pousava ao fundo do cartaz em cima de um palco junto a um poste. Achei a cena bastante familiar e me aproximei para ler as informações do filme, e para minha surpresa, lá estava um trecho: "baseado na obra homônimo de Charles Bukowski". O fodido era um escritor americano a final de contas, eu pensei. Foi amor à primeira cena que se incendiaria quando os primeiros parágrafos do romance “Misto-quente” fossem devorados com a sede de um náufrago. “Misto-quente” se junto à “On the Road”, Kerouac, “Por quem os sino dobram”, Hemingway, “O apanhador no campo de centeio”, Salinger, “Suave é a noite” Fitzgerald entre tantos outros que vieram como um banquete à minha apetite voraz por algo completamente diferente daquilo que eu já tinha lido da literatura nacional e muito da internacional (exceto a dos EUA, por puro preconceito meu na época) mudou minha percepção de literatura pra sempre.
Bom, falar de Bukowski é falar de muitas coisas profundas em relação a nossa condição com ser social, moral e humana. Junto a Nietzsche tenho Bukowski como os maiores sondadores da alma humana. É melhor eu colocar um ponto final nesta nota e deixá-los com um cara que realmente manja bem o autor, o tradutor Pedro Gonzaga.

Boa leitura,

Walter Rodrigues. 



PREFÁCIO PARA O ROMANCE MISTO QUENTE DE CHARLES BUKOWSKI*



Bukowski é, atualmente, autor bastante conhecido do público brasileiro. Pelo menos uma dezena de obras suas estão traduzidas, e boa parte dos títulos disponíveis no mercado faz parte do catálogo da Coleção L&PM Pocket. Ao mesmo tempo, porém, Bukowski ainda não conseguiu se livrar do estigma de autor de segunda linha, de segundo time, um autor cujo mérito só poderia ser encontrado por leitores desajustados, inexperientes ou por jovens que vêem na literatura do autor de A mais linda mulher da cidade, direta e sem pejos, a oportunidade de encontrar situações e descrições que, em certo aspecto, parecem próximas da realidade em que vivem. E assim se estabeleceu um equívoco perdoado ao leitor comum, mas que muitas vezes é mantido pelos próprios críticos literários.
Em primeiro lugar, Charles Bukowski não é personagem-narrador de seus textos. Seus personagens são criações literárias, invenções elaboradas e não simples colagens da vida do autor. O forte caráter autobiográfico que pode, com certeza, ser encontrado ao longo de toda obra é somente meio e nunca fim. Tanto o velho safado como Henry Chinaski são alter egos ficcionais.
Em segundo lugar, a simplicidade aparente do texto, a narração direta dos eventos (tão cara a ficção americana) é ardilosamente arquitetada por um autor que domina perfeitamente as técnicas de um fazer literário. Ou seja, toda a fluência pregada pelos personagens de escritor criados por Bukowski, ainda que espelhos dele próprio – e não há reflexo mais enganoso -, é uma construção elaborada, dissimulada pelo louvor à bebida e a escrita não-convencional. Os palavrões, a escatologia, os porres homéricos são mentiras que nos convencem da verdade, mentiras que nos fazem acreditar, mentiras que tornam nossas próprias misérias suportáveis, mentiras que são a base primeira da literatura, lembrando a vigorosa idéia de Vargas Llosa.

Pedro Gonzaga

----------------------------------------------------------------------
* Texto extraído da tradução de Pedro Gonzaga da obra de Bukowski intitulada, no original, "Ham on rye" e traduzida para o nosso idioma "Misto Quente" pela editora L&PM Pocket.


UM POUCO DE BUKOWSKI


Nasceu em Andernach, na Alemanha, a 16 de agosto de 1920, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã. Aos três anos de idade, foi levado aos Estados Unidos pelos pais. Criou-se em meio à pobreza de Los Angeles, cidade onde morou por cinqüenta anos, escrevendo e embriagando-se. Publicou seu primeiro conto em 1944, aos 24 anos de idade. Só aos 35 anos é que começou a publicar poesias. Foi internado diversas vezes com crises de hemorragia e outras disfunções geradas pelo abuso do álcool e do cigarro. Durante a vida, ganhou certa notoriedade com contos publicados pelos jornais alternativos Open City e Nola Express, mas precisou buscar outros meios de sustento: trabalhou 14 anos nos Correios. Casou, se separou e teve uma filha. É considerado o último escritor “maldito” da literatura norte-americana, uma espécie de autor beat honorário, embora nunca tenha se associado com outros representantes beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Bukowski morreu de pneumonia, decorrente de um tratamento de leucemia, na cidade de San Pedro, Califórnia, no dia 9 de março de 1994, aos 73 anos de idade, pouco depois de terminar Pulp.




Alguns livros do autor disponíveis na Amazon:

     


     


     





ALGUNS ESTOCADAS DO VELHO SAFADO



roll the dice

if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.
if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.
go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.
if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.
do it, do it, do it.
do it.
all the way
all the way.
you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.
TRADUÇÃO...


role o dado


Se você vai tentar, tente
do contrário, nem comece.

Se você vai tentar, vá com tudo.
Mesmo que isso signifique perder namoradas,
esposas, parentes, trabalhos e
até mesmo a cabeça.
Mas siga em frente de qualquer maneira.
Mesmo que isso signifique ficar sem comer durante 3 ou 4 dias.
Mesmo que isso signifique congelar em um banco de praça.
Mesmo que signifique prisão,
Mesmo que signifique derrisão,
escárnio,
isolamento.
O isolamento é o presente,
o resto é o teste de sua resistência,
de quanto você realmente quer fazer.
E você fará
apesar da rejeição e das piores chances
E será melhor que
qualquer outra coisa
que você pode imaginar.
Se você vai tentar,
vá com tudo.
Não existe nenhum outro sentindo como
esse.
Você estará a sós com os deuses
e as noites incendiarão como fogo.
Faça, faça, faça.
Faça isso.
Empenhe-se nisso,
Empenhe-se nisso.
Então você encaminhará sua vida para
um riso perfeito, essa é a única boa
briga que existe.
Tradução: Walter Rodrigues.

nobody can save you but yourself


nobody can save you but
yourself.
you will be put again and again
into nearly impossible
situations.
they will attempt again and again
through subterfuge, guise and
force
to make you submit, quit and/or die quietly
inside.
nobody can save you but
yourself
and it will be easy enough to fail
so very easily
but don’t, don’t, don’t.
just watch them.
listen to them.
do you want to be like that?
a faceless, mindless, heartless
being?
do you want to experience
death before death?
nobody can save you but
yourself
and you’re worth saving.
it’s a war not easily won
but if anything is worth winning then
this is it.
think about it.
think about saving your self.

Tradução...
ninguém pode salvá-lo, a não ser você mesmo


ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
será colocado, por vezes e vezes,
em situações quase impossíveis.
tentarão, por vezes e vezes,
todos os subterfúgios, forma e
força
que façam-no ceder, desistir e/ou morrer por dentro,
calmamente.
ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
e será fácil suficiente cair,
muito fácil.
mas não caia, não caia, não.
apenas assista-os.
escute-os.
você quer ser como eles?
seres sem face, sem mente,
sem coração?
quer saber o que é morrer
antes de morrer?
ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
e você merece ser salvo.
é guerra que não se ganha facilmente
mas, se é que haja vitória merecida,
então esta é.
pense sobre isso.
pense sobre salvar sua alma.
traduzido por Hilam A na Grama

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O vôo de Fernando


por Walter Rodrigues 


Sentado sobre um banco de concreto, isolado e compenetrado, seus grandes olhos fitavam  o vazio. Era nosso colega de classe Fernando. A noite seguia sem estrelas e sem lua. A grama estava seca. Resultado do sol intenso daquela tarde calorenta. A parca iluminação do campus nos deixava numa mescla de perplexidade e desespero. Não haveria a primeira aula, somente a segunda. Talvez a imagem daquele rapaz sentado sozinho de olhos tão grandes e brilhantes  fixados no vazio nos inserisse esse desespero e perplexidade. Talvez a ausência das estrelas, da lua e a fraca iluminação do campus. Talvez tudo isso combinado a uma voraz insatisfação pelo curso que eu levava ali.
Enquanto isso, aguardávamos por ali. Fernando também aguardava. Sem dúvida alguma ele tinha os olhos maiores e mais estranhos que eu já tinha visto. Aqueles dilatados olhos castanhos  tinham um brilho enigmático, quase diabólico. E quando ele começou a sorrir silenciosamente durante as aulas, seu sorriso não era o dos piores: dentes líneos, claros. No entanto, seu sorriso perdia em graça ao notarmos para quem ele era direcionado. E eu hei de concordar que as paredes de nossa sala, monótonas e austeras como qualquer outra parede do mundo, não tinha nada de engraçado. As garotas e os rapazes começaram a ter receios de Fernando. Talvez por isso não se aproximassem dele e não o convidassem para seus grupos de apresentação de trabalhos em classe. Mas até aí tudo bem, pois eles também não me convidavam.
No entanto, fazia alguns dias que nosso colega estava vendo alguma coisa que nos era invisível. Por certo era algo bastante engraçado e interessante dado seu sorriso cada dia mais constante. Vendo Fernando agora sentado sobre aquele banco, com os olhos fixos no nada, o sorriso na face redonda e a conversa interminável com coisa-alguma, me era impossível não ser tocado por um sentimento de compaixão. Eu sabia muito bem como era frustrado não ser aceito.
Então avancei em sua direção e sentei ao seu lado naquele rígido banco em concreto. Fernando olhou-me por alguns segundos com seus surpreendentes olhos, balançou a cabeça, lentamente, de cima para baixo e de baixo para cima, depois deu uma tragada e seu cigarro e voltou a olhar fixamente para frente.
Tentei puxar assunto, mas suas respostas eram evasivas. Eu não era um fumante, mas pedi um cigarro para ele. Ele me passou um, me olhando como se eu fosse irreal. Eu não poderia atingi-lo. Fernando estava numa outra dimensão e observava as coisas para além do convencional. Ele estava perdido dentro de si. Os outros colegas de classe nos olhavam curiosos. Deviam estar pensando: “A dupla perfeita”. E assim como Fernando, eu também estava cagando para eles. Mas Fernando estava numa dimensão superior. Eu não podia alcançá-lo. Ele estava em vôo alto.
- O que tu achas deles? – perguntei a Fernando apontando na direção dos nossos colegas, que juntos estavam conversando junto a porta da sala.
Ele não me respondeu. Apenas continuou olhando fixamente para o nada.
- Eu os acho muito imaturos – disse eu por fim achando que ele se encorajaria.
Mas ele não se encorajou, contudo.
Seu olhar estava tão desprovido de vida, embora tão brilhantes e acessos. Ele não estava drogado, era algo além disso.
Seu olhar parecia atravessar tudo, mas se você olhasse por alguns segundos que fosse dentro daqueles olhos imensos, você encontraria uma avassaladora tristeza, no entanto, não havia pedido de socorro. Ele parecia tranquilo e distante.
- O que tu estás achando do curso? – continuei insistindo. – Por que tu escolheu Geografia?
Ele respirou fundo. Seus olhos me apanharam por alguns segundos. Eram, se dúvida, olhos muito tristes e exaustos.
Então resolvi ficar calado. Não sabia mais o que dizer e nem o que fazer. Talvez eu devesse me erguer e deixá-lo ali com seus fantasmas. Mas não o fiz. Fernando e eu permanecíamos ali sentados como dois dementes a olhar fixamente e de forma perplexa o nada em absoluto. E o nada me parecia agora tão grandioso e insignificantemente significante. Eu estava me perdendo em meus pensamentos, cada vez mais abstratos e dispersos, enquanto o meu colega ao lado já esta por completo nos seus.      
Então o professor entrou na sala. Os demais colegas entraram em seguida.
- Vamos entrar? – sugerir ao meu parceiro.
- Vá lá – responde-me ele dando mais duas tragadas no cigarro que se findava. – Eu vou depois…
Nosso colega não voltou naquela noite, nem nas noites seguintes à sala de aula. A turma sentiu sua falta. Eu também senti. Até que numa certa noite o professor de Geografia Física entrou em sala de aula com a expressão pesada, olhando fixamente para sua mesa, se acomodando por fim atrás da mesma para depois nos encarar e dizer:
-  Tenho uma notícia triste para passar. O colega de vocês, o Fernando, infelizmente, ontem à noite, cometeu suicídio.  A mãe dele informou à direção que seu filho sofria de depressão profunda. Já tinha até sido internado algumas vezes.
Silêncio geral.
As garotas e os rapazes olhavam uns aos outros, boquiabertos deixando transparecer em seus olhos um estranho espanto misturado com descrença. Enquanto eu só conseguia pensar no fato de que Fernando havia conseguido voar mais alto do que qualquer um de nós. Ele voou para além das estrelas e se perdeu no vazio.